Divisas


Representação de siglas poveiras num azulejo que representa a Ala-Arriba!. É visível a "divisa" da embarcação.


O peixe apanhado na rede pertencia ao seu proprietário, quer seja lanchão ou sardinheiro, os peixes eram assim marcados com sigla e entregues às mulheres dos donos da rede. As "marcas de peixe" são golpes feitos em forma de sigla no peixe em diferentes pontos.
A tripulação de cada barco tinha também uma sigla que era usada por todos os tripulantes, caso estes mudassem de barco passariam a usar a sigla desse barco. Estas siglas eram chamadas de "divisas".
As divisas são verdadeiros «escudos d'armas», destinados ao reconhecimento do barco, mas, curiosamente, eram diferentes da marca do dono do barco. Note-se que todo o que o poveiro possuía era marcado com a sua marca pessoal, excepto o barco. Este facto aponta, segundo Lixa Filgueiras, para que os barcos estivessem sujeitos predominantemente a invocações mágico-religiosas, adoptando-se um santo-patrono para a embarcação, ganhando um carácter mítico, envolto em símbolos protectores.[1]
«Cinco dias depois, entrava na barra da Póvoa, uma lancha encarnada que, pelas suas divisas, sarilho, peixe e panal à proa, panal e quatro piques em cruz à ré, se reconheceu ser a lendária lancha Santa Philomena.Vinha finalmente, descansar de tanta luta e fadiga na acolhedora praia da terra-mãe». A. Santos Graça, Epopeia dos Humildes, pág. 146 Casamento

Os poveiros escreviam a sua sigla na mesa da sacristia da igreja matriz quando se casavam como forma a registar o evento. Este tipo de uso de siglas pode ser encontrado na Igreja Matriz (igreja matriz desde 1757) e na Igreja da Lapa.
A mesa da sacristia da antiga Igreja de Santa Maria de Varzim, guardava em si milhares de siglas que serviriam para um estudo mais pormenorizado, nomeadamente para verificar origens de famílias, mas foi destruída quando a igreja foi demolida em 1910. Situada no Largo das Dores, a igreja tinha sido edificada no século XI e serviu de Matriz até 1757.
Origem


1. Marca do islandês Ormur Ketilsson (1369), 2. Marca do islandês Þórður Snorrason (1439), 3. Marca do juiz sueco Scalle (1413) e 4. marca de um pedreiro da catedral de Uppsala, na Suécia


As siglas foram estudadas, pela primeira vez, por António dos Santos Graça no seu livro "Epopeia dos Humildes". Editado em 1952, o livro contém centenas de siglas e a história e tragédia marítima poveiras. Outras das suas obras são "O Poveiro" (1932), "A Crença do Poveiro nas Almas Penadas" (1933) e "Inscrições Tumulares por Siglas" (1942).
Para Santos Graça, as siglas estavam relacionadas com os povos castrejos e o autor chegou mesmo a comparar siglas poveiras e outras siglas mais modernas usadas por outras comunidades piscatórias com a escrita ibérica. No entanto, essa tese carece de provas. Depois de uma visita ao National Museet de Copenhaga, Octávio Lixa Filgueiras casualmente encontrou peças marcadas com "marcas de casa" da Fiónia na Dinamarca. Curiosamente, o complexo sistema hereditário de marcas encontrados na Póvoa de Varzim ocorreu também na Fiónia.
As siglas poveiras terão evoluído, provavelmente, através da colonização viking entre os séculos IX e X e permanecido na comunidade devido à prática da endogamia e protecção cultural por parte da população. As marcas, usadas como brasão ou assinatura familiar para assinar os seus pertences, também existiram na Escandinávia, onde eram chamados de bomärken (marcas de casa).[4]
Cada sigla-base tem um nome, normalmente relacionados com objectos diários, mas esta associação sigla-objecto parece ser tardia, tanto na Póvoa de Varzim como no sistema estudado na Fiónia. A ampulheta da Fiónia era desenhada da mesma maneira que o cálice da Póvoa de Varzim.[1]


Siglas poveiras