"É nestes verdes outeiros (da Guipuzcoa) que assenta a casa basca, típica, de lavradores, casa ao mesmo tempo rústica e senhorial, — singela nas suas linhas aldeãs, nobre no seu aspecto grave, e pitoresca no conjunto. ( ... ) aqui é que ela, a casa basca, é como Deus a deu, quero dizer simples e natural, autóctone, nascendo do solo e do clima, para servir o lavrador em suas precisões domésticas, agrícolas, pastoris, e também em seus brios de raça de lavradores-cavaleiros, como assim se consideram estes rústicos vasconços de avoengas linhagens.

"...Hidalgos todos, que por derecha línea descendían de la primera sangre", como diz Lope de Vega dos navarros aldeões de Baztan.
Ela é sempre um casarão de paredes sólidas, onde se encontra num só edifício o que em outras terras anda separado em construções distintas: a casa de habitação do amo, a dos servos, os currais, os palheiros, os alpendres dos carros, das caniçadas, do arado, das grades — de toda a alfaia agrícola.
"O basco instala debaixo do mesmo teto a família, os criados, os gados, os fenos, a adega do vinho, a tulha da azeitona, o celeiro do grão, Nestas casas, o enorme telhado de duas águas (...) diz a vida patriarcal que em comum fazem homens, mulheres, crianças, animais, utensílios, coisas, albergando todos e tudo sob a sua proteção.
"Na fachada, esse beiral colabora esteticamente com sua sombra; materialmente, com seu conforto; moralmente, com seu carinhoso gesto de abrigo.
"Que honrados e afetuosos são estes telhados e beirais! Dão a impressão de que, nas longas seroadas invernosas, à hora benta da leitura dos livros santos e das rezas em comum, todas as pessoas e coisas — família, servos, arados, rocas, a masseira do pão, os tonéis da sidra, as talhas do azeite — acompanham as orações do senhor e amo; e que nos currais os rebanhos se quedam em silêncio religioso e as almas dos brutos e as dos objetos se cristianizam, ouvindo as palavras de Jesus.

"(...) Para o primeiro andar sobe-se por uma exterior escada de pedra, com alpendre à entrada - galilé de religioso e hospitaleiro acolhimento. O arquiteto, a visar somente a função útil do edifício, pensou menos, talvez, na função bela da construção; no entanto, esta lá floriu espontânea, logicamente nascida do próprio arranjo arquitetônico, em ornatos tão naturais que sua arte é da melhor por ser arte em que se não vê propósito de o ser.
"Assim, são ornato os grossos cachorros do beiral, que vêm a ser o prolongamento (topos apenas cabeçados, e arestas apenas afagadas) do forte travejamento, galgado com o da cumeeira, e vindo de fora a fora, das traseiras à frontaria, com é também o grande telhado, que desce e esborda nas ilhargas sustidas por espeques, cuja fileira, obliquando da parede às telhas vermelhas, toma, na perspectiva, o aspecto de lanças paralelas, enristadas, a sustentar um toldo carmesim: - o beiral.
"Nos andares de enxaiméis, para melhor segurar os enchimentos de barro e cal, as vigas ao alto têm de ser próximas e salientes; e, pintadas de verde, - seus traços verticais, eqüidistantes e simétricos, ornam a fachada.
"O pouco acabamento, em apicoado grosso, no calcáreo amarelento do arco e nos umbrais da entrada para as lojas, é tão bem cabido que dir-se-ia um rústico florentino; e, pelo cunhal acima, as agulhas de pedra, grandes e pequenas, que o vão travando, postas à vista e em relevo, tostadas pelo sol e musgadas pelo tempo, adornam a fachada com as suas rachas coloridas a destacarem-se na cal.
"As paredes exteriores da casa enchem-se de cores - luz e sombra - dos topos e das fileiras dos barrotes que sustentam o varandão, e pela cepa que por sobre o seu peitoril debruça festões de parras verdes ligados aos verdes dos campos e das copas das faias - fundos em que ela pousa.
"E nenhuma destas famílias de lavradores deixa de patentear suas crenças religiosas e seus pergaminhos heráldicos: cravados nas paredes há velhos baixos-relevos de Santas ou Santos protetores do casal, ao lado de pedras de armas, nesta região em que o maior número se julga fidalgo, porque, segundo o basco Perochegui, "Vascongadas e Navarra são o seminário da nobreza de Espanha", visto Sancho VIII, "El fuerte", agasalhador dos aldeões navarros, a todos haver feito fidalgos: - "todos igualmente nobles, porqué su nobleza tiene una sola origen", dizia".
ANTERO DE FIGUEIREDO
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