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Tema: A razão de Antero

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    A razão de Antero

    A RAZÃO DE ANTERO


    Corria o ano de 1865, quando Antero de Quental, então em Coimbra, publicava a sua veemente Defesa da Carta Encíclica. De que encíclica se tratava? Nada mais, nada menos do que a Quanta Cura de S. S. Pio IX. Esta defesa é um documento impressionante e que surpreende se tivermos em conta que saiu do punho de um homem como Antero, espírito permanentemente revolto e alma inquieta, tão inquieta que desfechou na tragédia de um banco perdido no Campo de S. Francisco, em Ponta Delgada.

    Talvez por tudo isto mereça a pena recordar alguns trechos dessa tão notável peça. Diz, pois, o inolvidável poeta açoriano:

    «Servir a Deus e servir o mundo --- ter um corpo para as venturas da terra e uma alma para as recompensas do céu --- a liberdade na vida para nos afagar o orgulho de homem e, além da morte, a fé que dissipe os terrores do crente --- ser cristão quanto baste para iludir a rectidão do Juiz na hora do julgamento e, em tudo o mais, pagão no viver, pagão na prática de cada dia, de cada hora --- aceitar de Deus a segurança da salvação da alma e de Satanás o gozo da carne --- será isto um belo sonho para quem não compreende o valor desta palavra sacrifício, será este o ideal da nossa sociedade sensual e burguesmente comodista (...).

    (...).

    (...) E, todavia, alguns milhares de burgueses, sem paixão e sem alma, ignorantes e gordos, conceberam tudo isto, confundiram tudo isto, casaram estes impossíveis, ligaram em abraço incestuoso Cristo e Satanás, uniram enfim os pólos e o equador, achatando o mundo, deslocando o globo --- e a esta coisa sem nome se chamou racionalismo cristão, catolicismo liberal, relação do Estado e da Igreja --- ignorância e absurdo!

    (...).

    A Igreja recusa esses auxiliares enganadores --- porque aceitá-los é transigir, e ela não transige porque não pode e porque não deve.

    A Igreja é universal --- é católica --- o seu espírito é o absoluto. O que sai dela , o que não é dela, não é o indiferente ... é o inimigo, é o escravo revoltoso, é a heresia. (...) será, enfim, a sociedade moderna filha legítima e obediente da Igreja cristã?

    Não é. A Cúria Romana o confessa. E que não o confessasse, sabiamo-lo nós de há muito. Se não é o filho, é o inimigo --- se não é o Discípulo amado, não pode ser senão Judas o traidor!

    (...).

    Hoje, nesta idade de luz, quem é lógico, quem faz justiça inteira ao mundo e a si.

    És tu filósofo? não: o teu sofisma confunde tudo! Tu, homem de Estado? não: tu és o interesse que se compraz no imbróglio e na contradição! Tu, jornalista? não: tu és a intriga; ou quando não és a intriga, és a ignorância (...).

    (...).

    Sejamos ultramontanos muito embora, mas sejamos lógicos.

    (...).

    Ou, então, (...)sede ímpios muito embora, mas sede lógicos!

    (...).

    Submetei-vos ... ou rebelai-vos!

    (...)! Conciliar o inconciliável não é para vós --- não é para alguém no mundo.

    (...)?!

    (...).

    Mas há no mundo uma coisa sem nome, um monstro formado de todas as contradições, de todas as antíteses de todos os interesses rivais, de todas as oposições que podem referver numa sociedade multiforme e confusa (...).

    (...).

    A esse monstro moderno chama-lhe a filosofia absurdo --- embora o mundo persista em lhe chamar opinião pública.

    (...).

    Lança mil vozes discordantes numa mesma hora a sua boca, que se chama imprensa. E, como é um Deus monstruoso, os seus sacerdotes são disformes e grotescos, são bonzos e não apóstolos: e o mundo, que lhes obedece, não pode todavia reprimir um sorriso de escárnio ao ver passar a falange sagrada dos jornalistas.»

    (...).

    (...). A Opinião Liberal transviou-se mais uma vez. Não aceita das mãos da Igreja infalível a irrecusável conclusão de sua fé --- não a segue submissa, como crente e católica. Mas não tem também, como herética, o valor de a renegar corajosamente, absolutamente.

    (...).

    Não, ó liberais-católicos! a vossa revolta tem por nome impiedade. E, em face da grande, da luminosa, da omnipotente opinião pública, quem tem razão e direito e justiça, quem só a tem é esse velho sublime, cabeça coroada pelos últimos esplendores do astro cristão da fé, que acatais hipocritamente à luz do dia, e que à noite renegais e escarneceis!

    Judas beijou a Cristo uma só vez. Mas aos vossos beijos fementidos e venenosos quem há aí já que lhes possa saber a conta?...

    Abeirando-se do final, Antero explica com luminosas palavras o motivo pelo qual a Igreja não pode transigir:

    « A profetisa de Deus ver-se-ia serva dos reis! Escrava dos povos, a doutrinadora das nações! A mão que ata e desata as coisas do céu, algemada com grilhões da terra! E quem dá e interpreta a lei divina, recebendo inspirações e ordens da razão, quando não do interesse humano!»

    E conclui:

    «(...). No meio das convulsões tumultuosas deste mar desconhecido da revolução social, que há um século nos agita em todos os sentidos, o maior revolucionário foi o Papa e, nesta hora presente, o único talvez, porque foi ele quem achou a palavra da situação, a chave do grande enigma, a solução efectiva do problema moderno --- o Cristianismo e o mundo actual são incompatíveis e inimigos.

    (...) Pio IX arranca dolorosamente do seio da sociedade moderna o sofisma, a ilusão, a contradição que a roía como um cancro encoberto e lhe quebrava com as forças do corpo a energia e rectidão do espírito. Será impolítico no tribunal dos ineptos tiranetes a que chamam governos constitucionais, mas é político no grande, no alto tribunal da história, porque falou verdade.

    Isto lhe basta.»

    Estas palavras de Antero guardam uma actualidade pasmosa, bem visível com João Paulo II, o qual sem se deixar tolher pelo que diriam os bonzos da opinião pública (e muito foi, como era de esperar), não recuou quando entendeu que devia beatificar o Papa que Antero aplaudiu há quase cento e cinquenta anos. Por isso, a estes excertos, que gostosamente compilei, pus como título --- a razão de Antero!



    Joaquim Maria Cymbron

    ___________________________________________________
    NA --- Todas as transcrições foram tiradas da obra: Antero de Quental --- Prosas da Época de Coimbra, 1.ª ed., Sá da Costa, 1973, pp. 211-222.
    JMC

    Publicada por Joaquim M.ª Cymbron em 00:59 0 comentários Hiperligações para esta mensagem

  2. #2
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    Re: A razão de Antero

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    SUBLIME ANTERO


    Intriga como, entre aqueles que queimam incenso na religião das urnas, ainda haja tanto fascínio pela figura de Antero. Parece-me um caso de atracção pelo abismo.
    Fazem mal. Repetem o que se verifica com os ataques à Inquisição, por causa da teoria heliocêntrica: o ódio à Igreja cega-os a ponto de não conseguirem ver que o episódio, à volta de Galileu, se alguma coisa de subsistente prova, é que um homem isolado pode ter razão contra o mundo inteiro.
    Das prosas da célebre Questão Coimbrã, com assinatura do grande poeta açoriano, extraio estas passagens de um arrasador antidemocratismo:

    «O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, incorruptível e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o lugar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas , ou pelo patronato degradante dos grandes, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela ciência, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior duma alma que só vê e busca o bem, o belo, o verdadeiro.» ( Bom Senso e Bom Gosto , I).

    (...)

    «As grandes, as belas, as boas cousas só se fazem quando se é bom, belo e grande. Mas a condição da grandeza, da beleza, da bondade, a primeira e indispensável condição, não é o talento, nem a ciência, nem a experiência: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta como ilustres, nem à opinião, à crítica sem ciência nem consciência das turbas, do maior número , deve pedir conselhos e aprovação, mas só ao seu entendimento, à sua meditação, às suas crenças!» ( Ib. ).

    «(...) não é sobretudo lisonjeando o mau gosto e as péssimas ideias das maiorias , (...)» ( Ib. ).

    (...)

    «Como não buscam a verdade pela verdade, a beleza pela beleza, mas só a verdade pelo prémio e a beleza pelo aplauso, têm de as renegar tantas vezes quantas a beleza não agradar aos olhos embaciados da turba que aplaude, e a verdade ofender os senhores que premeiam e recompensam. Ora, quantas vezes num século premeiam os senhores a verdade sincera e inteira? quantas vezes aplaudem as turbas sensuais e ininteligentes a formosura ideal, límpida e simples?» ( A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais , III).

    A seguir, vibra-se a machadada mais funda:

    «Esta, a verdade, quer só dar-se a quem a procura por amor, exclusivamente por sua formosura, não pelo aplauso ou pelo preço que possa render. Ora isto é o que não podem fazer as literaturas oficiais. Seria renegar o seu mesmo princípio, o culto da opinião, e o seu fim, o triunfo ruidoso mas efémero das praças públicas. Falam às maiorias, têm de ser comuns. Dirigem-se ao vulgo, têm de ser vulgares. Especulam com as paixões públicas, têm de as aceitar e lisonjear. Dependem dos ídolos do dia, têm de os incensar. Recolhem juro dos prejuízos e ilusões nacionais, têm de conservar esse capital rendoso. Têm por infalível pontífice o juízo popular, não podem renegar de suas doutrinas, seus dogmas, seus cultos. Hão-de ir sempre ao nível do espírito público, do pensar das maiorias: nunca acima. Serão entendidos, aplaudidos, estimados. Nunca, porém, elevarão, nunca hão-de ensinar, nunca hão-de mostrar mais do que pode ver qualquer dos que estão no meio da turba ...» ( Ib ., IV).

    E remata nestes termos:

    « O povo, a verdadeira nação, isto é, os homens que sentem e os homens que pensam , esses não têm simpatia nem admiração pelos formosos sofismas duma arte brilhantemente estéril, que só serve para entorpecer o espírito adormecendo-o ao som de um canto doce mas fraco, sensual e sem altura. (...). Não querem ser divertidos, mas somente ensinados e melhorados .» ( Ib ., IV).

    Intriga como, entre aqueles que queimam incenso na religião das urnas, ainda haja tanto fascínio pela figura de Antero. Parece-me um caso de atracção pelo abismo. Fazem mal. Repetem o que se verifica com os ataques à Inquisição, por causa da teoria heliocêntrica: o ódio à Igreja cega-os a ponto de não conseguirem ver que o episódio, à volta de Galileu, se alguma coisa de subsistente prova, é que um homem isolado pode ter razão contra o mundo inteiro.


    Joaquim Maria Cymbron
    NB .: Os destaques a negrito são da minha responsabilidade.
    JMC

    Publicada por Joaquim M.ª Cymbron em 20:13 0 comentários Hiperligações para esta mensagem

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