Caros contertúlios e demais leitores:
Como português tenho uma aversão intestina a que, não pedindo conselho para tal, me digam por onde ir, o que pensar ou do que gostar. Foi por essa aversão marcada na própria génese da minha Pátria, que os portugueses venceram os diferentes cabos (de trabalhos, também), de que se dizia antes serem instransponíveis e guardados por monstros. Quem quer passar além do Bojador, tem de passar além da dor... mas passámos! E a seguir passámos o cabo das Tormentas! E tão bem passámos que o chamámos de Cabo da Boa Esperança. Porque o conhecimento é luz e esperança e a ingnorância é escuridão e medo.
Infelizmente, como o povo português é um povo de contrastes e incoerências profundas, poucos foram os meus compatriotas que historicamente desafiaram, de forma pública, racional e convincente, o atávico medo e aversão a tudo quanto é espanhol e, sobretudo, castelhano. Um antigo fado de Coimbra, que recolheu uma letra popular velhinha de séculos, dizia assim:
"Senhora do Almortão
Ó minha linda raiana
Virai costas a Castela
Não queirais ser castelhana!"
É certo que Portugal teve, algumas vezes na sua história, de cruzar ferro com Castela. É natural: os vizinhos nem sempre se dão bem. Mesmo os irmãos de sangue - como são portugueses e castelhanos - têm, vez por outra, os seus altercados. Mas, na verdade, tivémo-los bem menos que outros vizinhos; e se contarmos os combates travados pelos portugueses, muitos mais foram as batalhas que librámos contra os turcos e contra os holandeses, que contra os espanhóis (mesmo que fossem todos castelhanos). E a respeito desses nem um dito, nem um comentário popular, nada...
Porquê então este desígnio histórico de inculcar, desde terna infância, a aversão ao castelhano? Terá Portugal, depois de quase nove séculos de história, de se afirmar contra alguém ou alguma coisa? É que para mais, de Castela (da tradicional, pelo menos) nunca nos veio nenhuma oposição à existência de Portugal. Sim! É verdade! Houve reclamações (e guerras) pela titularidade da coroa de Portugal, não contra a sua existência. Reclamações que resultaram de direitos de sangue adquiridos por casamentos reais que ninguém nos obrigou a fazer. Que se lamente por isso - se fôr de lamentar - a ambição dos reis de Portugal e não a inimizade de Castela.
Não! Portugal não tem de se afirmar contra Castela, mas com Castela e toda a Espanha, pela exaltação e promoção de uma hispanidade partilhada com meio mundo. Porque é do interesse de Portugal, quer se goste ou não de Castela. E eu, apesar do que digam, sou apaixonado por Castela, pelo seu povo, pela sua cultura e pela sua tradição. E vou mostrar porquê, nos próximos 23 artigos, de A a Z. Sem conselhos!
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