O deambulatório dos anjos: o claustro do mosteiro de Sant Cugat del Vallès (Barcelona) e a vida cotidiana e monástica expressa em seus capitéis (séculos XII-XIII)

Ricardo da COSTA

In: LAUAND, Luiz Jean (coord.). MIRANDUM, n. 17, Ano X, 2006, p. 39-58.
(ISSN 1516-5124).

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Calendari 2005. 12 capitells del Monestir de St. Cugat (reinterpretats per Joan Tortosa) (imprés per Gràfiques Arís). Com seus belos desenhos, o artista Joan Tortosa pretendeu recompor alguns capitéis mutilados do mosteiro de Sant Cugat.
I. Breve história da vida cenobítica em Sant Cugat

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Vista aérea do conjunto do mosteiro de Sant Cugat. À direita, a igreja (com sua bela roseta); ao centro, na frente, a casa do abade; à esquerda, o claustro e suas dependências. Foto originalmente publicada em Rosa M. MARTÍN i ROS, “Sant Cugat del Vallès”, em Catalunya Romànica XVIII, Barcelona, 1991, p. 159.
Prudêncio, poeta latino do século IV, nos informa em seu Peristephanon1 que São Cucufate (em catalão Sant Cugat)2 havia sido martirizado no ano 304, diante das Muralhas de Otaviano, no tempo do imperador Diocleciano (243-313). Seu companheiro Félix, por sua vez, teria sido martirizado em Girona, um pouco mais ao norte. Ambos os mártires eram missionários vindos de Cesaréia, provavelmente fugindo das perseguições africanas.3
Na verdade, essas Muralhas de Otaviano eram uma fortificação, um castro construído pelos romanos no tempo de Augusto (27 a. C. – 14 d. C.) para proteger o cruzamento das vias Tarragona – Narbona e Barcelona – Égara, um das linhas mais importantes da Via Augusta que, vindo de Roma, se dirigia para Tarragona.4 Esse castro foi destruído provavelmente por francos e alamanos no século III, sendo reconstruído no século IV. Mas com a promulgação do Edito de Milão em 3135, pouco a pouco a função militar da fortificação romana foi dando lugar ao desenvolvimento de uma devoção religiosa ao mártir cristão.
Por volta dessa mesma época, foi construída no mesmo local uma pequena construção funerária chamada martyrium, para serem depositados os restos mortais do santo.6 Esse martyrium foi destruído por um incêndio no início do século VI, mas o local não foi abandonado, pelo contrário, pois no século VII o espaço já havia sido reaproveitado para a construção de uma pequena basílica (visigótica), onde uma pequena comunidade religiosa deve ter vivido.7
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Planta do conjunto de edificações do mosteiro (escala 1:400). J. A. Adell-Servei del Patrimoni Arquitectònic de la Generalitat de Catalunya. À direita, a igreja, à esquerda, o claustro e na frente, a casa do abade, construída posteriormente. Imagem Foto originalmente publicada em Rosa M. MARTÍN i ROS, “Sant Cugat del Vallès”, em Catalunya Romànica XVIII, op. cit., p. 167.
Com a invasão e o domínio muçulmano na Península Ibérica a partir de 711, essa comunidade religiosa teve curta existência. Houve uma tentativa por parte do abade de Saint-Denis de trasladar as relíquias de Sant Cugat em 778, junto à fracassada expedição de Carlos Magno a Saragossa. Por causa dessa relação do mosteiro com o ataque franco, por volta de 780 os sarracenos destruíram as construções em Sant Cugat. Mas com a conquista de Barcelona pelos francos em 801, a vida religiosa voltou a renascer no local.
É desse período o primeiro testemunho documental da existência de uma vida cenobítica em Sant Cugat: uma carta de Luís, o Gago (846-879)8 ao bispo da sé de Barcelona, Froduíno, confirmava os direitos e as posses de vários territórios, entre eles “...a casa de Sant Cugat e de Sant Félix, no lugar Otaviano, com todas as suas adjacências e pertences, tal como o abade Ostofredo teve por preceito real”.9
Esse Ostofredo (878-895) teria sido o primeiro abade do mosteiro sancugatense.10 Assim, ao longo dos séculos IX e X, o culto e a vida monástica em Sant Cugat prosseguiram e se afirmaram. Odomus Sancti Cucuphati pertencia à catedral de Barcelona e seus monges eram clérigos diocesanos que viviam sob uma regra, mas ainda eram sujeitos ao bispo. Os documentos do século X já falam de um mosteiro, de um abade e de uma regra beneditina, grupo que formava uma comunidade clerical diocesana adaptada às necessidades de uma região pouco povoada, e somente parcialmente cristianizada.11
A partir dessa época, lentamente a comunidade passou a adotar o beneditismo propriamente monástico, substituindo o controle episcopal por sua própria autoridade regular – tudo isso de acordo com o princípio da reforma carolíngia, que diferenciava a ordo monasticus da ordo canonicus.
Nesses séculos IX-X destaca-se o abade Gotmar (944-954), a quem se atribui uma crônica dos reis francos dada de presente ao príncipe al-Hakam, filho do califa Abd al-Rahman III.12 Gotmar foi duas vezes à corte de Luís IV13, em Breisach (nos anos 938 e 944) para receber preceitos para os mosteiros de Ripoll, de Sant Cugat, para a catedral de Vic e para a abadia de Rodes. Ele foi o primeiro de uma série de abades de Sant Cugat que também foram bispos de Girona. Além disso, o rei Luís IV concedeu o direito de eleger livremente o abade, além de confirmar-lhe todos os bens e a imprescindível imunidade jurídica.
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Maquete do mosteiro de Sant Cugat durante os séculos X-XI.
“Localizada no mesmo local que a atual, a igreja possuía três naves com uma abside principal e duas absidíolas abertas na espessura do muro. Um espaço coberto como uma espécie de átrio precedia a entrada. O claustro também se encontrava no mesmo lugar do atual e era ligeiramente maior. Formado por quatro galerias com arcos sustentados por pilares e colunas alternadas, em seu pátio ainda se conservava e era utilizada a igreja paleocristã. A construção da torre do campanário, iniciada na segunda metade do século XI, só foi concluída no final do século XVII. Da obra românica original apenas corresponde às bases da torre, caracterizadas no exterior por frisos arcados que decoram a fachada. O recinto foi envolvido por um fossado fortificado e defensivo, que hoje se conserva apenas um pequeno fragmento.” - FONT I COMAS, Joan (dir.). CAIRAT - Centre d'Aplicacions de la Informàtica a la Representació d'Arquitectura i el Territori.
Outro abade importante foi Odo (986-1010), pois conseguiu reconstruir o mosteiro após a invasão e destruição de 985 de Almançor (938-1002), ataque que matou o abade João (974-985) e muitos monges.14 Odo também viajou a corte do rei Lotário (954-986), em Compiègne, formando parte de uma embaixada do conde Ramon Borrell (992-1017) enviada para prometer fidelidade ao rei e pedir-lhe ajuda financeira e militar. Participou ainda de uma expedição militar a Córdoba (1010), quando foi gravemente ferido e morto na batalha de Guadeira (ou durante seu regresso) – observem que nesse mundo violento que era o mundo feudal, assim como senhores feudais, os abades também participavam (e ativamente) de batalhas.15
De acordo com o cartulário de Sant Cugat16, do século X ao XIII o mosteiro acumulou extensos territórios, desde o condado de Barcelona até a marca de Penedès e Osona. Possuía direitos de senhorio sobre sete castelos, cinco torres nas zonas de marca distribuídas pelas comarcas de Baix Llobregat (castro de Castelldefels, 970-1179), Anoia (castelos de Masquefa, 998-1193, e Clariana, 1012-1114), Alt Penedès e Baix Penedès. Sant Cugat também tinha o senhorio do castelo de Montgat, fora da marca.
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Maquete do mosteiro de Sant Cugat durante os séculos XI-XIII.
“No século XII foi iniciado um novo projeto construtivo para o mosteiro. A ordenação geral dos edifícios não foi alterada, somente aqueles mais importantes (a igreja, o claustro e a sala capitular) foram substituídos por novos. Essa renovação, empreendida graças à prosperidade econômica daquele momento, também ocorreu em muitos mosteiros e catedrais, como em Sant Benet de Bages ou na Sé de Urgell. Em meados do século XII foi iniciada a construção da nova igreja, só concluída no início do século XIV. Primeiro foi construída a cabeceira e a primeira seção das naves, com uma proposta arquitetônica totalmente inovadora para a época, que anunciava as formas góticas. A partir de meados do século XIII, foram construídas a segunda seção das naves e o cibório, quando as obras foram interrompidas. À medida que avançavam, era derrubado o edifício antigo, de maneira que boa parte das naves e da galilé do século XI (galeria situada na extensão do pórtico da igreja) conviveram muito tempo com a nova arquitetura. Por volta de 1190 foi iniciada a construção do novo claustro, mantendo-se os edifícios do século XI onde os monges se reuniam, dormiam e comiam. Concluído o claustro, foi construída uma nova sala capitular, maior que a anterior.” - FONT I COMAS, Joan (dir.). CAIRAT - Centre d'Aplicacions de la Informàtica a la Representació d'Arquitectura i el Territori.
Durante todo esse período de expansão das posses do mosteiro, colonização e repovoamento da região (quando teve um importante papel na Reconquista, ocupando terras fronteiriças em Penedès)17, ocorreram muitas desavenças entre o abade de Sant Cugat e o bispo de Barcelona, pois este desejava ter a tutela sobre o mosteiro, apesar de uma bula papal ter ratificado suas posses.18
Em 1089 estalou um grave conflito entre o bispo de Barcelona, o abade de Sant Ponç de Tomeres (em Provença) e abadia de Sant Cugat: graças a uma concessão de Berenguer Ramon, o Fratricida19, o abade de Tomeres conseguiu ocupar o cenóbio e expulsar os monges. Somente dois anos depois, após um julgamento em Sant Gil (também em Provença) é que o abade de Tomeres foi obrigado a restituir Sant Cugat aos monges expulsos. Essas desavenças só se resolveram definitivamente em 1251, quando o papa Inocêncio IV (1243-1254) decidiu submeter Sant Cugat aos bispos de Barcelona.20
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Mapa das propriedades e direitos do mosteiro de Sant Cugat (sécs. X-XIII) – cenóbios, celas monásticas e igrejas dependentes, territórios adstritos ao senhorio do mosteiro (em verde), torres e castelos, alódios, fazendas (ou propriedades) e moinhos. Mapa originalmente publicado em MARTÍN i ROS, Rosa M., “Sant Cugat del Vallès”, em Catalunya Romànica XVIII, op. cit., p. 163.
Além disso, alguns poderes laicos também desejavam se apoderar desses bens. Por exemplo, em 1013 o conde Ramon Borrell I21, sua esposa e o bispo de Barcelona resgataram de Sant Cugat as igrejas de Sant Llorenç e Sant Esteve de Munt, cedidas anteriormente por Borrell II ao mosteiro.22 Em contrapartida, o rei Jaime I, o Conquistador (1213-1276) favoreceu muito o mosteiro, eximindo-o de muitos tributos e confirmando suas posses, com o objetivo de enfraquecer o bispo de Barcelona.
Sant Cugat ainda sofreria um duro golpe: em 1114 o mosteiro foi atacado e parcialmente destruído pelos almorávidas.23 Somente cerca de trinta anos depois é que conseguiu se refazer dessa destruição, quando então teve início a construção da (nova) igreja românica (1145). Durante essa expansão territorial, o mosteiro sofreu reformas administrativas e foram colocados em prática os decretos do IV Concílio de Latrão (1215), que determinou reformas beneditinas, e assim, Sant Cugat passou a integrar a Congregação Claustral Benetidina Tarraconense.
A partir do início do século XIV começou a lenta decadência do mosteiro, e em 1351 aconteceu a última eleição direta do abade por parte dos monges, e o escolhido foi Pere Busquets (1351-1385). Após esse abaciado, com a construção das muralhas que ainda hoje cercam em parte o espaço religioso, a eleição do abade passou a ser feita pela cúria romana, dando início à crise da vida comunitária. Mas isso já é outra história.
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Maquete do mosteiro de Sant Cugat durante os séculos XIV-XV.
“Por volta de 1300 foram retomadas as obras da igreja, concluídas em 1337 com a nova fachada e a grande roseta (com vitrais de 1343). As novas naves foram construídas no estilo gótico, já totalmente estabelecido. A singularidade do trabalho dos construtores de Sant Cugat se manifesta na igreja, onde se abandonou a estrutura tradicional de três naves para formar um edifício de quatro. Nesse mesmo momento foi proposta uma remodelação completa dos velhos edifícios que envolviam o claustro, trabalho iniciado na parte oriental, onde se iniciou um grande edifício com arcos diafragmáticos não concluídos. O restante das obras desses séculos góticos foi concluído no tempo do abade Busquets (1351-1381), e seu aspecto mais inovador é a fortificação do mosteiro, que passou a ter um novo acesso através de uma porta fortificada que delimitava um recinto mais novo e amplo, maior que o claustro, e que consolidava assim o caráter feudal do mosteiro. As obras da igreja foram retomadas a partir do lanço do cibório, com a continuação das três naves já iniciadas e o acréscimo de uma quarta nave do lado sul, alinhada com o campanário. Assim ficava definitivamente concluída a substituição da igreja do século XI, que até então convivia com a nova obra. De qualquer modo, o resultado não alterou substancialmente a ordenação geral do mosteiro com os edifícios ao redor do claustro, ordenação já estabelecida por volta do ano mil. Estas obras, levadas a termo durante o governo do abade Busquets, implicaram a construção de um novo palácio abacial. As velhas salas do abade, na ala oeste do claustro, foram remodeladas para formar parte do arquivo do mosteiro.” - FONT I COMAS, Joan (dir.). CAIRAT - Centre d'Aplicacions de la Informàtica a la Representació d'Arquitectura i el Territori.
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