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Tema: Análisis crítico de los documentos del Concilio Vaticano II (en portugués)

  1. #1
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    Análisis crítico de los documentos del Concilio Vaticano II (en portugués)

    El blog Tradição Católica inicia una serie de entregas con el objetivo de mostrar, buscando el debate constructivo, los errores que existen en la letra de los documentos emanados de este concilio, y no sólo en sus interpretaciones. Si el tema es interesante de por si, también lo es la intención: tratar de hacer este análisis con el objetivo de que llegue al mayor número de gente posible. Seguramente es el primero que se hace para ser publicado y leído en internet.

    Comienza con una declaración de intenciones y el documento Unitatis Redintegratio.
    Aquí corresponde hablar de aquella horrible y nunca bastante execrada y detestable libertad de la prensa, [...] la cual tienen algunos el atrevimiento de pedir y promover con gran clamoreo. Nos horrorizamos, Venerables Hermanos, al considerar cuánta extravagancia de doctrinas, o mejor, cuán estupenda monstruosidad de errores se difunden y siembran en todas partes por medio de innumerable muchedumbre de libros, opúsculos y escritos pequeños en verdad por razón del tamaño, pero grandes por su enormísima maldad, de los cuales vemos no sin muchas lágrimas que sale la maldición y que inunda toda la faz de la tierra.

    Encíclica Mirari Vos, Gregorio XVI


  2. #2
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    Respuesta: Análisis crítico de los documentos del Concilio Vaticano II (en portugués)

    Em primeiro lugar, e ainda antes de iniciarmos a análise e posterior discussão do primeiro documento do Concílio Vaticano II, impõem-se algumas clarificações imprescindíveis para uma correcta compreensão do que neste blog se defende.

    1 Defendo, tal como a Fraternidade São Pio X e Msr Marcel Lefebvre sempre defenderam, que o Concílio Vaticano II é válido porque foi convocado e encerrado por legítima autoridade da Igreja, os papas João XXIII e Paulo VI, respectivamente. Estamos, portanto, perante um Concílio ecuménico da Igreja católica.

    2 No entanto, a minha consciência e todos os estudos que já fiz dizem-me que, para permanecer católica e fiel à fé dos meus antepassados, de todos os santos doutores, mártires e papas pré-conciliares; para permanecer fiel à doutrina e magistério de sempre, não posso aceitar como católicas todas as doutrinas ensinadas pelo Concílio Vaticano II. Nas palavras do Instituto do Bom Pastor, recentemente criado por Sua Santidade Bento XVI como Instituto de direito pontifício, o Vaticano II propôs-nos os principais problemas da modernidade, como a questão da liberdade de consciência, por exemplo. Ainda segundo as palavras do IBP que subscrevo inteiramente, o Concílio Vaticano II, na sua letra e não somente no seu "espírito", apresenta alguns pontos de descontinuidade (ruptura, portanto) com o Evangelho e a Tradição católica.

    3 Assim sendo, embora se trate de um Concílio ecuménico, o Vaticano II, ao introduzir muitas doutrinas contrárias ao que sempre foi ensinado pela Igreja e crido pelos fiéis, coloca-se numa situação «anormal e muito delicada que, pela sua novidade, tem merecido a atenção de bispos, cardeais, sacerdotes, teólogos e, claro, leigos. A aplicação das reformas desejadas pelo Vaticano II tem suscitado acesas discussões no seio da Igreja católica e até fora dela porque, se por um lado alguns desejam uma verdadeira revolução doutrinal, litúrgica e teológica; uma ruptura total com o passado, por outro, outros pretendem manter-se fiéis à fé católica integral, conservando intacto o autêntico e sagrado depósito de doutrina que receberam dos que os precederam na fé.

    4 Neste sentido, e porque existe de facto uma gravíssima crise na Igreja, única, sem qualquer precedente na História, também os leigos, como esta miserável criatura que nem sequer tem formação em teologia, são chamados a contribuir, na medida das suas capacidades (que no meu caso são poucas e más), para as discussões que se afiguram cada vez mais necessárias. É, portanto, nosso dever permanecer católicos e, para tal, é preciso esclarecer, a todos quantos não compreendem a nossa posição, o porquê da desconfiança e até rejeição de quase tudo quanto foi ensinado pelo Vaticano II. Noutras palavras, o facto de sermos leigos não nos exime de responsabilidades na defesa da fé católica tal como sempre foi vista, ensinada e praticada ao longo de dois milénios desta sacrossanta, única e verdadeira religião. Perante a crise que assola a nossa tão amada Igreja, esposa imaculada do cordeiro sem mancha, temos o dever - a nossa consciência assim o exige – de pugnar pelas verdades eternas, imutáveis e absolutas que, de modo nenhum, podem ser negociadas ou transformadas em novas "verdades" como, veremos, pretendeu muito ambiguamente o Concílio Vaticano II.

    5 Muitos católicos, uns seguramente por ingenuidade, ignorância invencível e na sua maior boa fé, outros por comodismo, covardia ou uma mais que possível inclinação ao chamado progressismo, defendem que a crise em que se encontra a nossa amada Igreja é fruto de interpretações abusivas dos textos conciliares; de abusos que se deram no pós-Concílio. Estes, pretendendo salvar a ortodoxia do Concílio, advogam que:
    Os textos conciliares são bons, nada têm de heterodoxo;
    foram as interpretações ilegítimas, os chamados abusos interpretativos, que deram origem à crise pós-conciliar;
    no pós-Concílio, deram-se muitos abusos frutos do "espírito do Concílio" que condenam.

    Resumindo, condenam o "espírito" mas tentam, através das mais incríveis ginásticas interpretativas (viva o livre exame neoprotestante!) e acrobacias intelectuais dignas dos maiores sofistas, salvar a letra do Concílio que, segundo eles, seria ortodoxa e conforme com a Tradição. Fazem interpretações totalmente ilegítimas e falsas dos textos conciliares, interpretações essas que de modo nenhum se podem deduzir da letra do Concílio, tanto mais quando já se estudou suficiente e razoavelmente a doutrina católica e se tem alguma formação em lógica aristotélica-tomista.

    Veremos que a letra do Concílio propicia, sim, as anticatólicas interpretações mais progressistas que dela fazem os que agem de má fé.

    6 Neste debate, que espero seja elevado tanto no conteúdo quanto na forma, procurar-se-á discutir os documentos do Vaticano II, a sua ortodoxia ou falta dela, a sua continuidade ou ruptura com o magistério anterior (tanto o infalível quanto o tendencialmente infalível), as suas implicações práticas na vida quotidiana dos católicos, as novas doutrinas que introduziu ou não, a sua pastoralidade, a sua nova eclesiologia, a sua correcta interpretação caso possa ser salvo. É, portanto e como já foi acima referido, uma discussão que se pretende séria e fundamentada nas duas fontes da revelação: a sagrada Escritura e a Sagrada Tradição. Também, logicamente e de forma indispensável, no sagrado magistério dos romanos pontífices, único e legítimo intérprete destas duas fontes da divina revelação.

    7 Mais algumas notas:
    O Concílio Vaticano II quis expressar-se a um nível pastoral, não sendo, contrariamente aos concílios de Trento e do Vaticano I, dogmático e infalível. A Concílios dogmáticos e infalíveis como os dois supracitados, deve o católico aderir com fé divina e católica. A um concílio pastoral como pretendeu ser o Vaticano II, apenas devemos assentimento de fé. Neste caso específico, o assentimento de fé limita-se àquilo que possa, eventualmente, estar de acordo com a Tradição e não a todas as doutrinas ensinadas por este Concílio, doutrinas essas que veremos estarem claramente em desacordo com a fé católica.
    Mais ainda, o Vaticano II foi um concílio atípico ou anómalo porque, contrariamente aos demais concílios ecuménicos da santa Igreja, não ensinou nenhum dogma nem declarou anátemas.
    Sendo o Vaticano II pastoral, falível e atípico, uma «coisa híbrida na História da Igreja, é-nos totalmente permitido debatê-lo e combater os seus pontos de descontinuidade mais críticos e que comprometem, de forma directa, a nossa permanência ou não como católicos.

    8 Quase a terminar estas notas prévias, há que destacar cinco situações distintas que resultam de uma análise dos documentos do Vaticano II:
    Primeira situação: as coisas em que o Concílio foi ortodoxo e conforme à Tradição. Com efeito, o Vaticano II não tem só coisas más! Também ensinou, em alguns pontos, catolicamente e, mesmo quando introduziu certas novidades, estas não foram todas contrárias à fé católica. Neste sentido, vejo como algo de muito positivo o novo papel atribuído aos leigos. Se depois houve abusos grandes (e houve!), a letra do Concílio não pode ser responsabilizada por eles. Sejamos sérios;
    Segunda situação: as ambiguidades. Os textos conciliares foram escritos propositadamente de forma ambígua para agradar a «gregos e troianos, o que equivale a dizer a conservadores e liberais (progressistas). Nos documentos do Vaticano II, encontramos «coisas pouco claras, de uma ambiguidade digna de grandes «inteligências. Coisas tão ambíguas e bem elaboradas não podem ser o resultado da inocência de quem esteve por detrás da elaboração dos textos. Quem o fez sabia bem o que fazia e com que intenção o fazia. Ora aqui apresentam-se já dois pontos importantes de desconfiança: primeiro, como confiar e seguir textos ambíguos, que não falam com clareza, permitindo várias interpretações? Segundo, se pensarmos a priori que os textos foram intencionalmente escritos de forma ambígua, não só desconfiamos dos textos em si como de tudo o que veio depois do Concílio, dos demais documentos do magistério, feitos já não para ensinar e mandar com autoridade, mas para agradar a todos: para uns ensinam (embora só recomendem, exortem, aconselhem), enquanto que para outros, precisamente por nada mandarem, podem perfeitamente ser desobedecidos. Ora isto é o caos! Foi daqui que surgiu o relativismo e indiferentismo da maioria dos pseudo-católicos pós conciliares. Ou o magistério fala com toda a clareza na interpretação da Escritura e da Tradição, cumprindo a missão que lhe foi destinada, ou nada feito! Ou o magistério ensina universalmente, guia os fiéis e manda com autoridade e para toda a Igreja, sem ambiguidades no discurso, sem eufemismos, ou cada qual faz o que mais lhe agrada! Os textos do Vaticano II abrem enormes brechas para um sem número de heresias e para os abusos que depois se verificaram. Por serem ambíguos, é neles que radica o problema.
    Terceira situação: as omissões. Não sei se também para agradar aos dois grupos contrários estabelecidos, o Vaticano II «esqueceu-se de explicitar alguns pontos da doutrina católica de sempre, quando formulava as suas novas doutrinas e mesmo quando tentava colocá-las em continuidade com as anteriores. Veremos, mais à frente, algumas dessas omissões graves.
    Quarta situação: as contradições internas. Pois é. Além de apresentar aos fiéis doutrinas contrárias ao magistério de sempre, o Vaticano II, fruto das suas ambiguidades e da vontade de agradar a todos, também se contradiz a si próprio. Não raras vezes, estamos nós tranquilamente a ler um documento do Concílio quando, quase sem notar, nos deparamos com uma mais ou menos grave contradição! Também as veremos lá mais para a frente. Por enquanto, retenhamos que é muito frequente ler algo num parágrafo e o seu contrário, dois ou três parágrafos mais abaixo. Bom, às vezes até é mesmo no parágrafo seguinte!!!
    Quinta situação: a pior de todas, a mais grave de todas, a quase incontornável sem uma revisão de todos os textos problemáticos: as heresias, os erros doutrinários, os graves erros contra a fé! Nesta, temos que parar mais tempo, quando analisarmos os textos.

    9 Outra coisa que acho muito importante – importantíssimo! – esclarecer é a seguinte: Quando nós católicos tradicionais nos referimos ao Vaticano II como latrocínio ou conciliábulo, não pretendemos, pelo menos a maioria de nós, negar a sua validade e o seu carácter de Concílio ecuménico. Falo por mim e pelos casos que eu conheço. Queremos tão-somente realçar que, em virtude das suas graves ambiguidades, omissões, contradições e erros doutrinários, ele deve ser corrigido; devem ser eliminados os erros e, a longo prazo (esta é a minha opinião), deve ser revogado. Para mim, só a revogação do Concílio poderia resolver a crise mas isso não significa que não o reconheça no que ele é: um Concílio ecuménico pastoral, falível e anómalo. O facto de, um dia, poder vir a ser anulado; o facto de, um dia, passar à História como um anti-concílio, não significa que, agora, neste momento, não o vejamos como válido naquilo que tem de válido e como anti-católico nos seus elementos contrários à fé. Não somos nós, que nenhuma autoridade temos, quem pode dizer se o Vaticano II foi um Concílio legítimo da Igreja ou não. Temos que pensar que sim e obedecer a tudo quanto for conforme à Tradição (que, convenhamos, não é quase nada!) e resistir ao resto (ou seja quase tudo!). Nesta perspectiva, aguardemos as discussões teológicas entre a Fraternidade São Pio X e as autoridades do Vaticano; esperemos a correcção das ambiguidades e o desaparecimento dos erros; aguardemos a revisão dos textos e/ou a correcta interpretação dos mesmos, de acordo com a tradição; e, a longo prazo, esperemos a sua revogação. Repito, para mim esta seria a melhor solução. Em todo o caso, ainda que não seja revogado (que proximamente não será, claro!), ser-nos-á apresentado de outra forma, ser-nos-á mostrado outro Concílio, já sem os erros a que nos habituámos nestes quarenta anos, outro diferente, o de Bento XVI, o que vai resultar das discussões com a FSSPX. Não é o ideal mas, ainda assim, será outro Concílio! Se por um lado não posso dizer que acredito na revogação, a curto/médio prazo, do Vaticano II (não sejamos ingénuos!), por outro, posso afirmar convictamente que acredito numa revisão dos textos conciliares, fruto da crítica construtiva da FSSPX aos documentos.

    10 Perante a constatação, caso a consigamos fazer, de que os documentos pré e pós conciliares estão em clara contradição uns em relação aos outros, com quais devemos ficar? A quais deles devemos seguir? Aos do Vaticano II? Afinal, até são mais actuais, foram solenemente promulgados por um Concílio ecuménico, não deveríamos escolher estes em detrimento dos outros, mais antigos e que não foram formulados em Concílio?

    Não!

    Devemos seguir e obedecer àqueles que ensinam o que a Igreja sempre ensinou, aos que afirmam o que é dito nos catecismos, sucessivamente pelos Doutores da Igreja e por papas anteriores aos mesmos.

    Devemos obedecer aos que são mais conformes aos dogmas, à doutrina católica. Se uns contradizem os outros, devemos ficar com os que são verdadeiramente católicos e não com os que, contradizendo a doutrina de sempre, introduzem novas doutrinas que não são católicas. A esses, devemos resistir e desobedecer para permanecer católicos. E desobedecer sem o mais mínimo problema de consciência.

    11 Começaremos então, agora, depois destas brevíssimas notas de esclarecimento, a analisar o decreto do Concílio sobre o ecumenismo: Unitatis Redintegratio. Veremos como este documento, quer por ambiguidades e contradições, quer por erros doutrinários, se afasta do magistério dos papas pré-conciliares, nomeadamente da encíclica Mortalium Animos do Papa Pio XI.

    Comecemos então!
    Aquí corresponde hablar de aquella horrible y nunca bastante execrada y detestable libertad de la prensa, [...] la cual tienen algunos el atrevimiento de pedir y promover con gran clamoreo. Nos horrorizamos, Venerables Hermanos, al considerar cuánta extravagancia de doctrinas, o mejor, cuán estupenda monstruosidad de errores se difunden y siembran en todas partes por medio de innumerable muchedumbre de libros, opúsculos y escritos pequeños en verdad por razón del tamaño, pero grandes por su enormísima maldad, de los cuales vemos no sin muchas lágrimas que sale la maldición y que inunda toda la faz de la tierra.

    Encíclica Mirari Vos, Gregorio XVI


  3. #3
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    Respuesta: Análisis crítico de los documentos del Concilio Vaticano II (en portugués)

    Unitatis Redintegratio

    A primeira perplexidade que nos surge logo assim que começamos a ler o documento é o seu objectivo. Esta perplexidade é tanto mais evidente quanto mais conhecermos a doutrina católica de sempre, muito anterior a este decreto. O Objectivo da Igreja a partir do Vaticano II, claramente expresso no proémio deste documento, é a unidade dos cristãos. Isto fica bem claro quando se diz no parágrafo 1: "Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio Ecuménico Vaticano II."

    Poder-se-á objectar que esse foi sempre o objectivo da Igreja, ao longo dos séculos e que eu estaria a argumentar de forma falaciosa, já que o documento especifica o que seria essa unidade.

    Ocorre que tal fundamentação é que seria falaciosa, para dizer o mínimo. E sê-lo-ia principalmente por dois motivos:
    Primeiro porque a encíclica Mortalium Animos contradiz claramente a noção de unidade dos cristãos, tal como expressa neste decreto do Concílio, dando-lhe outro significado completamente diferente, como veremos ainda neste texto (que, desconfio, será enorme);
    Segundo porque a Unitatis Redintegratio, ao falar de unidade, nunca fala explicitamente e sem equívocos de conversão dos hereges e cismáticos (que chama irmãos separados) à única e verdadeira fé salvífica: a fé católica. Mais ainda, da única vez que a palavra conversão aparece neste documento, vem seguida da expressão «do coração. É a célebre teoria, nascida no Vaticano II, que todos, católicos, hereges e cismáticos, nos devemos converter a Cristo; que todos devemos converter o coração a Deus. Ora bem, isto não é de todo errado. Nesta frase, não há, aparentemente, nenhuma falsidade em termos da correcta teologia e da sã doutrina católica. No entanto, há uma gravíssima distorção de conceitos, uma deturpação dos mais elementares princípios católicos, uma adulteração de um dos dogmas da nossa fé: o de que fora da Igreja (católica) não há salvação. Este dogma, sempre expresso de forma inequívoca por todos os papas pré-conciliares, não foi afirmado nem implícita nem explicitamente neste decreto, elaborado para agradar mais a protestantes que a católicos. Só por isso já merecia total resistência por parte destes últimos.

    Voltando à conversão do coração, é possível afirmar que o Concílio Vaticano II, nomeadamente através deste documento, coloca a Igreja numa atitude de aprendizagem com as seitas heréticas (que chama diplomaticamente de comunhões ou comunidades cristãs!) e com as igrejas cismáticas (as palavras herege e cismático não aparecem uma única vez em todo o documento. Fala-se em cisma mas não em cismáticos; hereges nem pensar!). Se todos temos de nos converter, então fica implícito que a Igreja católica não é a depositária única da verdade, a única detentora dos meios de salvação e santificação; se a Igreja já não ensinará com autoridade mas colocar-se-á numa atitude de escuta, de abertura, de diálogo e de aprendizagem (para alguns uma atitude mais humilde), então ela nega-se a si mesma, rebaixa-se ao nível das seitas, nega a sua missão primordial de santificar a todos, a sua lei suprema e universal que é a salvação das almas.

    Por enquanto, fiquemos com a ideia de que no proémio do documento, se expõem os objectivos gerais do mesmo e que o objectivo central da Igreja quanto ao ecumenismo, dali para a frente, é a unidade de todos os cristãos. Isto, claro, sem nunca se especificar de forma bem clara e inequívoca o que seria essa unidade. Ambiguidades não faltam, contradições também não: muito rapidamente se oscila de uma afirmação mais ousada e totalmente contrária ao depósito da fé, para imediatamente a seguir, como que para justificar a anterior aos olhos dos conservadores, se apresentar outra, em que se fala catolicamente na doutrina de sempre. O documento, tal como tudo o que o Vaticano II fez e promoveu, é muito confuso e contraditório: ora diz uma coisa, ora afirma o seu contrário. E nem me venha ninguém com a historieta de que não sabemos ler!

    Prossigamos.

    Ainda no proémio, e sem saírmos do ponto 1, podemos encontrar a seguinte pérola (não sei se de heresia ou de ingenuidade):
    "O Senhor dos séculos, porém, prossegue sábia e pacientemente o plano de sua graça a favor de nós pecadores. Começou ultimamente a infundir de modo mais abundante nos cristãos separados entre si a compunção de coração e o desejo de união. Por toda a parte, muitos homens sentiram o impulso desta graça. Também surgiu entre os nossos irmãos separados, por moção da graça do Espirito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos. Este movimento de unidade é chamado ecuménico. Participam dele os que invocam Deus Trino e confessam a Cristo como Senhor e Salvador, não só individualmente mas também reunidos em assembleias. Cada qual afirma que o grupo onde ouviu o Evangelho é Igreja sua e de Deus. Quase todos, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja de Deus una e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro, a fim de que o mundo se converta ao Evangelho e assim seja salvo, para glória de Deus.
    Este sagrado Concílio considera todas essas coisas com muita alegria."

    Vamos por partes que os erros são muitos:
    Este documento é um hino à heresia, se não lhe for dada uma interpretação correcta, se não for corrigido. É da letra do Concílio, e este documento prova-o bem, que nascem todos os abusos pós-conciliares.

    O Senhor, alegadamente, terá concedido aos hereges (uops cristãos separados!) o desejo de união e, deste desejo de uma Igreja una, visível e universal, teria nascido o movimento ecuménico. Ora o parágrafo acima transcrito ou revela grande ingenuidade ou pretende enganar os incautos! O movimento ecuménico nasceu, como veremos mais à frente e com as citações da Mortalium Animos, com o objectivo de criar uma certa unidade entre todos os cristãos; mas uma unidade na indiferença, sem conversão, no respeito mútuo pelas crenças de cada um. É, portanto, um movimento relativista, indiferentista relativamente à verdadeira religião, um movimento no qual a Igreja santa e católica jamais, antes do Vaticano II, quis participar. É um movimento que até se poderia chamar de maçónico já que se serve dos mesmos princípios da maçonaria: os princípios do respeito pelas ideias dos outros, da união, do pacifismo, da chamada fraternidade universal! Uma fraternidade universal sem verdade, sem conversão, aceitando-se cada um como é, com as suas ideias erradas. Tudo, claro, sob a aparência da unidade, da concórdia e da paz. Foi a este movimento ecuménico, que assim nasceu e assim cresceu, que a Igreja pré-conciliar jamais quis pertencer. Foi a este movimento ecuménico, agora aclamado por este documento conciliar, que o Papa Pio XI teceu duras críticas na Mortalium Animos.

    O documento continua as potenciais heresias (assim se entendem bem as doutrinas da RCC, no fundo, coitados eles não têm a culpa, só aplicam o Vaticano II!). Segundo o documento, o movimento ecuménico surgiu, entre os hereges ou irmãos separados, com o objectivo de restaurar a unidade entre os cristãos (unidade sem verdade e sem conversão, como já vimos e veremos). O grave é que surgiu por moção da graça do Espírito Santo! Um movimento relativista e indiferentista, que tinha por objectivo igualar todas as seitas e a verdadeira religião, nasceu por inspiração do Santo Espírito! Para condenarmos Jonas Abib pelas suas declarações heréticas (os pentecostais são lindos e santos), temos, por uma questão de lógica e coerência, que criticar o documento conciliar que dá azo a que se diga tal coisa. Aqui está claramente escrito – e desafio a que me provem o contrário – que o movimento ecuménico-maçónico no qual a Igreja jamais quis participar surgiu por celeste inspiração do Espírito Santo! Primeira contradição em relação ao magistério anterior: a Igreja católica sempre condenou o movimento ecuménico, e o documento conciliar diz que esse movimento nasceu «por moção da graça do Espírito Santo. Com que ficamos? Com a Mortalium Animos que condenou o ecumenismo (o mesmo movimento ecuménico que este decreto aclama) ou com a Unitatis Redintegratio que diz que o dito movimento nasceu do Espírito Santo? Os dois estão em evidente contradição. Decidam-se, eu já escolhi. Mas, por uma questão de lógica, se escolherem a Mortalium animos:
    Rejeitem a letra do Vaticano II! Pelo menos, este documento. Levem até ao fim a lógica que desenvolvem. Se basta uma só heresia para contaminar uma obra, já está provado do que está feito o Vaticano II.
    Se escolherem ficar com este decreto:
    Não falem mais mal de Jonas Abib! Sejam coerentes, não o critiquem mais por dizer exactamente o mesmo que aqui está. Ele só segue a letra do Vaticano II!

    Ou se rejeita a letra deste documento e se critica assim Jonas Abib pelas suas heréticas declarações, ou se vê ortodoxia neste documento e, assim sendo, não se pode criticar o mau senhor. O que ele fez foi unicamente repetir a doutrina ensinada por este decreto! Haja coerência. Criticar Jonas Abib e não rejeitar a letra do Concílio é aplicar dois pesos e duas medidas já que o desgraçado só repetiu o que aqui está! Por outras palavras mas a mesmíssima doutrina.

    Diz ainda o parágrafo transcrito que o Concílio Vaticano II sente grande alegria pela existência de tal movimento (o movimento ecuménico). Sem palavras, sem mais! Tendo em conta que Pio XI condenou, está tudo dito, não?

    Provada a primeira contradição com o magistério anterior, a primeira nova doutrina que, lentamente, foi sendo inculcada na mentalidade dos católicos, passemos às próximas, não menos graves.

    No primeiro capítulo, no ponto 2, diz-se o seguinte:
    "O Espírito Santo habita nos crentes, enche e rege toda a Igreja, realiza aquela maravilhosa comunhão dos fiéis e une a todos tão intimamente em Cristo, que é princípio da unidade da Igreja. Ele faz a distribuição das graças e dos ofícios enriquecendo a Igreja de Jesus Cristo com múltiplos dons, «a fim de aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, na edificação do corpo de Cristo» (Ef. 4,12)."

    Pois, aqui não se especifica quem serão estes «crentes, é muito abstracto, tendo em conta que se está a falar de ecumenismo. Não é aqui dito de forma clara e inequívoca que se fala da Igreja católica. De contrário, dir-se-ia dos católicos e não dos crentes. Continua a bater na mesma tecla: «o Espírito Santo habita nos crentes. Desta falácia, nascem todas as heresias! Que crentes? De quem se fala? Não seria boa ideia uma clarificação a esta passagem para evitar interpretações mais ousadas?

    É verdade que no parágrafo seguinte se fala no colégio dos 12 e no Papa mas, como disse, é no parágrafo seguinte. E para quê serve um parágrafo? Para mudar de assunto! Nas frases supracitadas, nada se diz de quem podem ser estes «crentes, «fiéis, esta «igreja de Jesus Cristo. Seria a Igreja católica somente ou a igreja católica e as seitas em diálogo? Não se percebe, não é claro. Esta passagem é mais uma fonte de abusos.

    O ponto três é, porém, muito mais ousado na introdução de doutrinas heterodoxas. Como ver continuidade aqui? Vejamos:
    "Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão da Igreja católica, algumas vezes não sem culpa dos homens dum e doutro lado. Aqueles, porém, que agora nascem em tais comunidades e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da separação, e a Igreja católica os abraça com fraterna reverência e amor. Pois que crêem em Cristo e foram devidamente baptizados, estão numa certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja católica. De facto, as discrepâncias que de vários modos existem entre eles e a Igreja católica - quer em questões doutrinais e às vezes também disciplinares, quer acerca da estrutura da Igreja - criam não poucos obstáculos, por vezes muito graves, à plena comunhão eclesiástica. O movimento ecuménico visa a superar estes obstáculos. No entanto, justificados no Baptismo pela fé, são incorporados a Cristo , e, por isso, com direito se honram com o nome de cristãos e justamente são reconhecidos pelos filhos da Igreja católica como irmãos no Senhor.
    Ademais, dentre os elementos ou bens com que, tomados em conjunto, a própria Igreja é edificada e vivificada, alguns e até muitos e muito importantes podem existir fora do âmbito da Igreja católica: a palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo e elementos visíveis."

    Aqui é preciso ter muita muita calma! Só pérolas de heresia, só novas doutrinas, completamente contrárias ao depósito sagrado da fé! É impossível descer mais baixo.

    Primeiro, introduz-se aqui o tão aclamado conceito da «plena comunhão, da «comunhão imperfeita. Este new speak do Vaticano II até arrepia. Aos hereges pertinazes chama-se irmãos separados; à sua permanência e obstinação no erro, comunhão imperfeita!

    Ora sabemos bem – a lógica assim no-lo diz – que, ou há comunhão, ou não há. Não existe comunhão imperfeita nem comunhão plena. Ou estamos unidos à Igreja católica, ainda que de forma implícita, ou não estamos em comunhão com ela. Tão simples quanto isto. Este conceito da plena comunhão, como o reforço da expressão irmãos separados (que já era utilizada esporadicamente antes do Concílio), são formas de agradar a protestantes, de nos colocarmos numa atitude de diálogo e de abertura em relação a eles. Mas Cristo Nosso Senhor não mandou a Sua Igreja dialogar, mandou-a ensinar! Acaso disse o Senhor: «ide e dialogai? Ou terá dito: «ide e ensinai?

    Ou há comunhão na fé, na doutrina, nos princípios, ou não há comunhão! Não há meio termo. O que seria uma comunhão imperfeita? Non sense!

    Outro conceito que foi introduzido para agradar protestantes foi o dos elementos de verdade e de santidade nas seitas heréticas. A partir do Vaticano II, a verdade, absoluta e única, deixou de ser una, passando a estar dividida. Há parcelas de verdade aqui, outras ali, e seria a reunião de todas estas parcelas de verdade que daria origem à verdadeira verdade (passe a redundância).

    Este texto está a ficar enorme e, como já conheço a maioria das pessoas que me lêem, sei que vão ficar sem paciência para ler isto tudo.

    Continuo noutro post, publicado mais logo ou amanhã e nas caixas de comentários! Por enquanto, já temos alguns pontos a discutir. Analisar um documento, com rigor, ponto por ponto, explicando devidamente em que está errado, é muito mais difícil do que eu pensava. Pensava fazer uma análise exaustiva do documento mas não estou a conseguir! Vamos fazendo isso na caixa de comentários e em posts subsequentes (talvez um novo ainda hoje ou amanhã). Por enquanto isto é suficiente para iniciar o debate.

    No entanto, permitam-me sugerir um texto óptimo sobre esta questão. Não se trata de «aproveitar o que outros já disseram, nem de repetir maquinalmente, mas estou completamente de acordo com os argumentos expressos neste texto. Subscrevo-os por isso aconselho a sua leitura.

    Leiam por favor
    este texto
    Que é muito elucidativo.

    Assim escuso de estar a repetí-lo já que concordo inteiramente com ele (só não tive ainda tempo para verificar se as citações que apresenta estão bem feitas).

    Para termos mais alguns elementos para o debate, podemos destacar:
    o decreto Unitatis Redintegratio,
    a sua antítese,
    a encíclica Mortalium Animos
    e ainda, para que não digam que já me esquivei, indicando um texto da Permanência,
    este «post meu, retirado de um Manual de Teologia dogmática.

    Recomendo ainda a leitura dos pontos do catecismo de São Pio X referentes ao dogma de que fora da Igreja não há salvação.
    Aquí corresponde hablar de aquella horrible y nunca bastante execrada y detestable libertad de la prensa, [...] la cual tienen algunos el atrevimiento de pedir y promover con gran clamoreo. Nos horrorizamos, Venerables Hermanos, al considerar cuánta extravagancia de doctrinas, o mejor, cuán estupenda monstruosidad de errores se difunden y siembran en todas partes por medio de innumerable muchedumbre de libros, opúsculos y escritos pequeños en verdad por razón del tamaño, pero grandes por su enormísima maldad, de los cuales vemos no sin muchas lágrimas que sale la maldición y que inunda toda la faz de la tierra.

    Encíclica Mirari Vos, Gregorio XVI


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    Respuesta: Análisis crítico de los documentos del Concilio Vaticano II (en portugués)

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    Continuando a análise dos documentos conciliares...

    O ponto 3 do decreto conciliar «Unitatis Redintegratio» está cheio de ambiguidades e erros, sendo, igualmente, um descarado e escandaloso hino à heresia. Não sei dizer as coisas de outro modo. Trata-se efectivamente de um hino à heresia e ao relativismo doutrinal. Em consciência, e porque quero permanecer católica e assim salvar a minha alma, não posso aderir e concordar com este ponto do documento. E, se por uma só heresia se contamina toda a boa obra, concluo que o câncer deste parágrafo se espalhou a todo o documento, pelo que, para permanecer católica, devo rejeitá-lo resolutamente. Move-me um firmíssimo amor à verdade, antes e acima de tudo e de todos. Os documentos do Vaticano II são um verdadeiro escândalo, estão cheios de heterodoxias. Umas, mais ou menos camufladas; outras, abertamente declaradas. Por outro lado, os frutos podres vêm inequivocamente confirmar a perversidade da árvore de onde provêm. E ninguém, nem os mais conservadores alinhados com o Vaticano II, terá o descaramento de me negar que os frutos do ecumenismo, longe de ser a conversão em massa (que era o que se esperaria de tão louvável movimento ecuménico) são o indiferentismo dos católicos e a pertinácia dos hereges.

    Como é que uma coisa destas pode ter ocorrido na santa Igreja católica? E como é que os conservadores, que parecem amar a doutrina e a verdade, se acomodam a este estado de coisas, dizendo que os documentos são ortodoxos? Cegos (os documentos) a guiar outros cegos (os conservadores)! Não me conformo, não me conformo. Pessoas que amam a doutrina e se recusam a ver a verdade, não me conformo! Dos progressistas e dos mornos e ambíguos, já tudo posso esperar. Mas dos fiéis à doutrina, dos que amam a Igreja? Não me conformo!

    Mas vamos por partes, vejamos os erros e tentemos expô-los com clareza, se a isso nos ajuda a divina graça. E se em algo falhar, corrijam-me os meus leitores e amigos, seguramente muito mais capazes do que eu de levar a cabo esta tarefa. Não tenho qualquer mérito diante de Deus, e as minhas capacidades são poucas, os meus conhecimentos limitados. No entanto, pelo pouco que me é dado entender, sendo eu uma inapta de facto, o Vaticano II tem tantas e tão grandes heterodoxias que, até uma miserável criatura ignorante como eu, as pode ver com clareza e, dentro das suas fracas capacidades, refutar como puder, sempre à luz da sagrada doutrina católica, perene e intemporal, que amo acima de tudo.

    Em primeiro lugar, peço-vos alguma paciência, na análise destes documentos que me propus fazer. Sei que já deveria ter avançado mais, mas outras «coisas» têm ocupado os meus pensamentos. Esta análise será retomada, mas com calma e dentro das minhas possibilidades.

    Volto aos textos apologéticos, com toda a força e firmeza, depois de me ter submetido a mim mesma a uma reflexão de índole mais pessoal, para saber se o devia fazer ou não; se me devia dedicar, exclusivamente, à espiritualidade, dadas as virtualidades da apologética e os problemas que acarreta. Contudo, a firme defesa da verdade é um dever a que não posso - ainda que o quisesse – renunciar.

    Vamos lá então prosseguir.

    No início do ponto 3 do decreto, diz-se o seguinte:
    "Nesta una e única Igreja de Deus já desde os primórdios surgiram algumas cisões, que o Apóstolo censura asperamente como condenáveis. Nos séculos posteriores, porém, originaram-se dissensões mais amplas. Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão da Igreja católica, algumas vezes não sem culpa dos homens dum e doutro lado."

    Começa bem, de facto. O que mais me irrita tanto nos documentos conciliares como nos católicos ambíguos que não escrevem nem uma frase que se aproveite é precisamente a ambiguidade em que se movem. Não seria possível ser «clarinhos» de modo a evitar distorções? Ou seriam essas ambiguidades intencionais por forma a alterar, lenta e subtilmente, a doutrina católica? Eis o grande mistério.

    Os textos conciliares não são explicitamente heréticos e, quando o são, aparece, quase de imediato, uma espécie de retractação de algo dito anteriormente.

    Neste caso, o texto começa por se expressar catolicamente para depois ser envenenado pela ambiguidade, pelo erro subtil e, por fim, pela heresia descarada. A heresia, porém, sendo precedida por palavras mais ou menos católicas, acaba por passar despercebida, não para os hereges que muito se têm aproveitado do facto de ela estar plasmada no documento, mas para o fiel comum que, evidentemente, não é especialista nestas questões nem tem de o ser.

    Reparem que o documento, para melhor passar as suas heresias, começa por admitir, em uníssono com a doutrina, que a Igreja católica é a única Igreja de Deus, sendo porém igualmente verdade que nesta consideração não se demora nem faz qualquer reflexão acerca do carácter salvífico da Igreja, nem da necessidade desta última para a salvação. É como se o dissesse a contragosto, por descargo de consciência. Em seguida avança logo para os erros e, nestes sim, demora-se longamente. E enterra-se tanto mais quanto mais procura explicá-los à luz do iluminismo maçónico e dos respeitos humanos que o caracterizam, misturando-os, entretanto, com alguns conceitos católicos, de modo a que permaneçam ocultos e não escandalizem de forma explícita. Habituemo-nos, pois, a ver nos textos conciliares heresias explícitas, erros subtis e doutrina católica, tudo misturado numa babel de conceitos e imprecisões que julgava impossível em documentos do magistério eclesiástico.

    Ainda no domínio dos conceitos católicos, o decreto menciona as cisões que «o apóstolo censura asperamente como condenáveis». No entanto, e para lançar já a primeira gota de veneno num documento que poderia ter sido bom mas não foi, diz-se logo a seguir que «comunidades não pequenas» se separaram da «plena comunhão da Igreja católica, algumas vezes não sem culpa dos homens dum e doutro lado».

    Dois pontos importantes:
    1 A falácia da plena comunhão a que, se me permite Deus, regressarei mais para a frente. Não se diz, de forma explícita, que os cismáticos ortodoxos e os hereges protestantes se separaram da Igreja. Prefere-se antes, e tudo por uma noção falsa da caridade cristã além dos execráveis respeitos humanos que deitam tudo a perder, falar numa comunhão imperfeita. Sugere-se, isso ver-se-á ainda neste parágrafo, que os hereges e cismáticos fazem parte do corpo de Cristo, ainda que imperfeitamente! Ora o que é isto a não ser jogar com as palavras e, o que é bem pior, com a sagrada doutrina católica, o depósito que a Igreja deve inviolavelmente manter e defender?

    A sólida doutrina, por prudência e verdade, sempre distinguiu hereges formais (nominal e explicitamente fora da comunhão com a Igreja e que, portanto, não fazem parte nem do seu corpo nem da sua alma) e hereges materiais (os que, embora nominal e explicitamente fora do corpo místico, podem, não obstante, estar unidos à sua alma, pelas graças que Deus lhes comunicar e segundo o seu grau de ignorância invencível e não culpável). Tudo isso o Concílio ignorou; passou por cima da doutrina que decidiu interpretar a seu bel-prazer e segundo uma concepção puramente idealista, anticatólica e liberal.

    Um herege formal, obstinado no erro, não está em comunhão com a Igreja, nem perfeita nem imperfeita. Não há nenhum grau de comunhão entre a Igreja santa e católica e os seus inimigos declarados, que investem contra Ela e a sua sagrada doutrina com toda a fúria.

    Um herege material, se de boa fé na sua falsa doutrina, pode sim estar em comunhão imperfeita com a Igreja, já que, pelas orações dos católicos, pelos méritos dos sacrifícios aplicados em seu favor, pela virtude da Igreja una e única de Cristo, pelas graças que, pela Sua imensa misericórdia, Deus comunica à sua alma, pela sua ignorância não culpável, pelo seu desejo (ainda que implícito) de pertencer à Igreja caso a conhecesse, podem estar intimamente unidos à alma desta mãe e mestra.

    No entanto, o Concílio não fez esta distinção fundamental; não afirmou, inequivocamente, o dogma de que fora da Igreja [católica, evidentemente] não há salvação; e foi muito mais longe, ainda neste parágrafo.

    Portanto, tudo nos leva a concluir que, ainda que o termo «plena comunhão» possa legitimamente ser usado ao nos referirmos a hereges materiais (se for bem explicada essa distinção fundamental e necessária, coisa que não foi feita), não devia ter sido utilizado no decreto conciliar, no contexto em que foi invocado e pelas razões que o motivaram. Desse termo, altamente ambíguo, podem deduzir-se coisas muito diferentes e, o que é gravíssimo, o Concílio endossa, como seguidamente veremos, a mais radical, perigosíssima e herética das definições de «plena comunhão», ao chamar os hereges de cristãos de pleno direito e ao explicitamente – e sem retractação – fazer crer que são incorporados a Cristo e à Igreja!

    2 Ainda neste ponto, e ainda antes de passar à frente (os erros são tantos!), vejamos como o Concílio coloca, mais uma vez pelos malditos respeitos humanos, a Igreja santa, a nossa sacrossanta religião, em situação extremamente humilhante, rebaixando-a ao nível das seitas cismáticas e heréticas, negando implicitamente uma das marcas que a caracterizam, a saber: a santidade. Sim, meus amigos, o que afirmo causa perplexidade, mas é a mais pura verdade. O texto, ao pedir implicitamente perdão aos hereges (afirma que das cisões são culpados tanto os que se separaram da Igreja quanto os homens da Igreja) está, com efeito, não só a desrespeitar e ofender gravemente a memória dos nossos antepassados na fé que, ao contrário dos conciliares, muito amaram a Igreja e se esforçaram por defendê-la sem respeitos humanos da perfídia dos seus inimigos, mas a pôr em dúvida, de modo muito subtil é certo, a santidade perfeitíssima da esposa imaculada de Cristo. Fazem uma crítica implícita aos papas e bispos [aos homens de igreja] da época das cisões e, com isso, procuram, denegrindo a história e obscurecendo a verdade, agradar aos hereges do nosso tempo. Que feio!!! Que péssimo serviço prestado à verdade! Que ignomínia! Que falta de amor à verdade, que falta de respeito pelos que amaram ao extremo a nossa santa Igreja! E tudo para agradar hereges. E o que é mais grave, num documento magisterial que, em circunstâncias normais, mereceria o nosso assentimento de fé e não a adesão da fé divina e católica, por ser meramente pastoral.

    Pois bem, livre de qualquer paixão ou impulso, posso afirmar – como de resto afirmam todos os católicos de boa fé que se dedicam à defesa da Igreja – que a culpa da reforma protestante foi unicamente de Lutero, Calvino e outros que, querendo ver os seus perniciosos hábitos e pestilentas doutrinas legitimados e não sabendo como fazê-lo, se revoltaram contra a santa Igreja, com o absurdo pretexto das indulgências que, de resto, ainda hoje fazem parte da doutrina católica.

    Quem, com dois dedos de testa, com alguma inteligência e a mais básica formação doutrinal e amor à apologética, se atreveria a colocar na Igreja – ou nos seus filhos da época – a culpa pelos desvarios e desvios doutrinais dos heresiarcas da reforma? Só mesmo para agradar hereges se poderia defender semelhante disparate! E este é, precisamente, o primeiro – embora não o mais grave – erro evidente deste parágrafo.

    É por demais evidente que se procura a todo o custo, ainda sacrificando-se a verdade histórica e a coerência com os princípios doutrinais, agradar aos hereges. Embora muitos detestem a verdade, foi na sequência deste ecumenismo mal estruturado quer nos princípios quer na prática é que seis pastores protestantes puderam opinar acerca da reforma litúrgica.
    Aquí corresponde hablar de aquella horrible y nunca bastante execrada y detestable libertad de la prensa, [...] la cual tienen algunos el atrevimiento de pedir y promover con gran clamoreo. Nos horrorizamos, Venerables Hermanos, al considerar cuánta extravagancia de doctrinas, o mejor, cuán estupenda monstruosidad de errores se difunden y siembran en todas partes por medio de innumerable muchedumbre de libros, opúsculos y escritos pequeños en verdad por razón del tamaño, pero grandes por su enormísima maldad, de los cuales vemos no sin muchas lágrimas que sale la maldición y que inunda toda la faz de la tierra.

    Encíclica Mirari Vos, Gregorio XVI


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