..."a verdade, quando impedida de marchar, refugia-se no coração dos homens e vai ganhando em profundidade o que parece perder em superfície... Um dia, essa verdade obscura, sobe das profundidades onde se exilara e surge tão forte claridade, que rasga as trevas do Mundo"
Rolão Preto in Inquietação
Francisco de Barcelos Rolão Preto nasceu em 5 de Fevereiro de 1894, no Gavião (Abrantes). Era ainda um estudante liceal no «Colégio Figueirense», quando se juntou na Galiza às tropas que, comandadas por Paiva Couceiro, desencadearam as incursões monárquicas de 1911-12. Refugiado na Bélgica, veio a ser o secretário da revista Alma Portuguesa, onde Luís de Almeida Braga cunhou a expressão "Integralismo Lusitano". Tendo retomado os seus estudos no Liceu Português de Lovaina (criado pelo Professor Mendes Pinheiro), veio a frequentar a Universidade da mesma cidade, onde foi aluno do cardeal Mercier (arcebispo de Malines) e se licenciou em Ciências Sociais. Partiu depois para Toulouse, onde concluiu o curso de Direito, em 1917. De passagem por Paris, antes de retornar a Portugal, ainda conheceu e privou com destacadas personalidades do nacionalismo francês da época, como Maurice Barrès (republicano) ou Charles Maurras, Léon Daudet, Jacques Bainville (monárquicos).
Em Portugal nos finais de 1917, Rolão Preto assumiu de imediato importantes responsabilidades no seio do jornal integralista da tarde, A Monarquia. Após o assassínio de Sidónio Pais, quando os partidos da «República Velha» preparavam a sua total reinstalação no poder, foi Rolão Preto que levou a ordem de Aires de Ornelas ("Go on!") pela Serra da Estrela e Beira Baixa, a levantar o Exército pela restauração da Monarquia.
Em 1920, durante a prisão de Hipólito Raposo em S. Julião da Barra, Rolão Preto assumiu a direcção do jornal A Monarquia e da organização do Integralismo Lusitano. Cooptado para a sua Junta Central, em 1922, veio depois a desempenhar destacado papel nas acções conspirativas que vieram a derrubar o regime parlamentar republicano, em 28 de Maio de 1926. Estreito colaborador do General Gomes da Costa, foi Rolão Preto o Autor do Manifesto em 12 pontos afixado nas paredes de Braga, no qual se formulavam as bases programáticas do movimento militar que se iniciava e se chamavam os portugueses às armas.
A máxima notoriedade de Rolão Preto, porém, viria a dar-se na sequência do lançamento do «Movimento Nacional-Sindicalista», em Fevereiro de 1932, através do qual foi desafiado o Salazarismo emergente. Sob a direcção de Rolão Preto e Alberto de Monsaraz, aquele movimento de massas veio a abalar profundamente o País. Através do jornal A Revolução, Rolão Preto, com extraordinários dotes de persuasão, conseguiu imprimir ao nacional-sindicalismo uma liderança fortemente carismática, mobilizando grande número de jovens das Academias.
O «Movimento Nacional-Sindicalista», embora não colocasse abertamente a questão do Trono através de A Revolução - em Para além do comunismo, 1932, o "apelo ao Chefe" era, no entanto, claramente identificado como o "Chefe histórico" e "dinástico" - e tivesse adoptado métodos milicianos de organização e propaganda, não deixou de permanecer fiel à matriz tradicionalista, orgânica, anti-parlamentar do Integralismo Lusitano - entretanto dissolvido enquanto organização política. Na historiografia portuguesa das últimas décadas, a chamada "fase nacional-sindicalista" de Rolão Preto tem sido considerada como uma deriva fascista no seu percurso político, por não se compreenderem os fundamentos cristãos do ideário político integralista que lhe está na base, de raiz comunitária e personalista (ver tb "Política de Personalidade"). Apesar de Rolão Preto ter saudado com esperança as vitórias das forças nacionalistas na Europa (nomeadamente dos fascistas em Itália e dos nazis na Alemanha), a verdade é que este, em entrevista à United Press, não deixou de fazer alusão à sua distinta matriz doutrinária, enunciando uma clara demarcação ideológica: o fascismo de Mussolini e o Nacional-Socialismo de Hitler, eram "totalitarismos divinizadores do Estado cesarista", ao contrário do Nacional-Sindicalismo, que filiava a sua doutrina nas tradições cristãs de Portugal.
O modernismo autoritário de Salazar, apesar de também se proclamar das tradições cristãs e de fazer jus a certa bonomia catedrática, veio a revelar-se bem mais próximo do fascismo, mostrando-se aliás em melhores condições para atrair e manter as juventudes influenciadas pelos modernismos estatistas em voga. Em Novembro de 1933, com as actividades do «Movimento Nacional-Sindicalista» totalmente proibidas, foi Salazar quem logrou captar para o seio do regime parte significativa das juventudes que o Nacional-Sindicalismo, por breves momentos, conseguira mobilizar, entre os quais se destacavam José Cabral, Dutra Faria, Ramiro Valadão ou Pires de Lima. A cisão no seio do Nacional-Sindicalismo deu-se precisamente quando Alberto de Monsaraz e Rolão Preto resolveram impugnar abertamente o modelo de Regime Corporativo de Partido Único - tipicamente fascista -, defendendo a independência do Movimento que dirigiam. Em Junho de 1934, uma representação ao Presidente da República voltou a recolocar o problema. Entre outras reivindicações, uma vez mais se preconizava a constituição de um Governo nacional com a participação de todas as tendências políticas. O regime Salazarista, alicerçado no modelo fascista do Partido Único, porém, estava já completamente senhor da Situação, acabando Rolão Preto por ser preso e expulso para Espanha (ver caracterização política da época, por Rolão Preto, em "Apologia de César" e "Ressurreição dos Mortos"). Pouco depois, uma nota oficiosa do Governo ainda insistia em convidar os Nacional-Sindicalistas a ingressar na União Nacional, ficando o Movimento, uma vez mais, totalmente proibido.
Em Espanha, Rolão Preto veio a residir durante cerca de um mês (Novembro) em casa de José António Primo de Rivera, com quem terá colaborado na redacção dos "27 pontos" programáticos da Falange (segundo José Luis Jerez Riesco). Veio a reentrar em Portugal em Fevereiro do ano seguinte, com o intuito de reorganizar e relançar o Nacional-Sindicalismo mas, em Setembro, o Governo deu Rolão Preto como implicado num frustrado movimento revolucionário contra o regime ("golpe Mendes Norton"). De novo forçado a sair para Espanha, Rolão Preto acabou por vir a acompanhar o desenrolar da Guerra Civil ao lado dos nacionalistas da Falange. O seu livro Revolução Espanhola (Aspectos, Homens, Ideias), dá conta dessa experiência.
A sombra do seu exemplo de resistência ao Estado Novo, e o seu forte carisma pessoal, porém, não deixaram de martirizar Salazar durante esses anos, ao ponto de este o ter procurado neutralizar politicamente através de aliciamento para vários cargos importantes no seio do regime, como o de Administrador da SACOR ou o de Embaixador de Portugal junto da Santa Sé. Rolão Preto tudo recusou.
Após a segunda Grande Guerra, Rolão Preto veio a retomar intervenção política através do apoio ao Movimento de Unidade Democrática (MUD). Tomou parte no comité de candidatura à presidência da República do Almirante Quintão Meireles e, nas eleições de 1958, com Almeida Braga e Vieira de Almeida, integrou também a candidatura do General Humberto Delgado, assumindo a chefia dos Serviços de Imprensa, escrevendo vários discursos da Candidatura e parte do respectivo Programa Político (ver José Manuel A. Quintas,Os monárquicos e as eleições de 58).
Em estreita relação com Mário Saraiva, Barrilaro Ruas, entre outros, veio a ter directa intervenção na constituição da Editora «Biblioteca do Pensamento Político», nos movimentos da «Renovação Portuguesa», «Convergência Monárquica», bem como nas «Comissões Eleitorais Monárquicas», em cujas listas se apresentou como candidato a deputado à Assembleia Nacional, em 1969.
Em 23 de Maio de 1974, por iniciativa da «Convergência Monárquica», foi fundado o «Partido Popular Monárquico» (P.P.M.), no qual Rolão Preto assumiu a Presidência do Directório e do Congresso.
Francisco Rolão Preto morreu em 19 de Dezembro de 1977. Em 10 de Fevereiro de 1994, foi condecorado, a título póstumo, pelo Presidente da República, Mário Soares, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, pelo seu patriotismo e "entranhado amor pela liberdade".
Obras mais importantes: A Monarquia é a Restauração da Inteligência, Lisboa, 1920; Para Além do Comunismo, Coimbra, 1932; Orgânica do Movimento Nacional Sindicalista, Lisboa, 1933; Salazar e a Sua Época: Comentário às Entrevistas do Actual Chefe do Governo com o Jornalista António Ferro, Lisboa, 1933; Justiça!, Lisboa, 1936; O Fascismo, Guimarães, 1939; Em Frente! Discurso pronunciado pelo Dr. Rolão Preto no banquete dos intelectuais nacionalistas, Castelo Branco, 1942; Para Além da Guerra, Lisboa, 1942; A Traição Burguesa, Lisboa, 1945; Inquietação, Lisboa, 1963; Carta aberta ao Doutor Marcello Caetano, Lisboa, 1972.
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