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Tema: Aljubarrota - otros ángulos

  1. #1
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    Aljubarrota - otros ángulos

    COMEMORAÇÃO DE ALJUBARROTA

    «Em 14 de Agosto de 1385 — há portanto 550 anos — foi travada entre portugueses e castelhanos a batalha de Aljubarrota, não muito longe do sítio onde hoje se admiram a igreja e convento da Batalha, erguidos em convento da Batalha, erguidos em comemoração da vitória.
    A desproporção das forças em presença — 7.000 portugueses para mais de 30.000 inimigos — o fulminante da vitória, as pesadíssimas perdas infligidas aos castelhanos, mas perdas infligidas aos castelhanos, a fuga do rei de Castela, a maneira como foi conduzida a batalha sob o aspecto puramente militar por esse extraordinário generalíssimo, e assombroso de misticismo religioso e de génio guerreiro, que se chamou D. Nuno Álvares Pereira, fazem de Aljubarrota o ponto central da longa guerra havida com Castela e a vitória mais representativa do esforço de nossos avós pela independência de Portugal.
    Esta é a primeira e grande liberdade por que se bateram então.
    A crise de pensamento e de consciência que na passagem da primeira para a segunda dinastia atormentou os portugueses, os perigos que afrontaram, as fomes e pestes que sofreram, as lutas em que se empenharam só para manter o direito de não serem governados por outros e vincar a aspiração de continuar o seu rumo histórico sem sujeição a rei estrangeiro, gravaram para sempre Aljubarrota no espírito da Nação e fizeram desta data a verdadeira festa da independência.
    Passaram sobre o acontecimento alguns séculos que não foram sempre de paz e concórdia na península.
    Novas dificuldades de sucessão no trono português trouxeram o domínio dos Filipes e contra ele as longas guerras da restauração. Sobre estas mesmas também já passaram séculos.
    Era ridículo ter alimentado nos corações os rancores nascidos nas batalhas: por isso Aljubarrota, Atoleiros, Valverde, com três séculos mais tarde Montijo, Ameixial, as linhas de Elvas, Montes Claros são vitórias mas não já gritos de ódio, não são hoje contra ninguém, são para nós mesmos.
    E parece que assim mesmo deveria ser.
    Podemos orgulhar-nos de sermos na Europa o único país cujas fronteiras se podem dizer imutáveis desde há séculos; é, de facto curioso!
    Uma vez talhada pelos primeiros reis na faixa atlântica, nem mesmo se notou nunca a preocupação de alargar na península as fronteiras da Pátria.
    Ia noutra direcção a força expansiva da raça, o seu génio descobridor e de colonização: pelo Atlântico, pelo Índico se expandiu o povo português, descobriu as terras e os mares, abriu aos outros povos novos mundos, levando e deixando por toda a parte o traço característico da sua dominação — o humanitarismo da sua alma latina, o apostolado da sua civilização cristã.
    Por outro lado, a Espanha seguiu também o seu curso, ora paralelo ora concorrente, ergueu a sua história no nível dos grandes heroísmos e façanhas, fez na América Central e do Sul, afora o Brasil, poderosas nações, filhas do seu sangue e do seu catolicismo.
    Não precisara de nós e só contra nós não pudera nunca ter razão.
    Estamos em face de um imperativo histórico, contra o qual têm lutado debalde os derrotistas, os acomodatícios, os filósofos d`aquém e d`além fronteiras. Estes têm o direito de, raciocinando sobre abstracções, classificar de erro o que os séculos impuseram e a nossa vontade inabalável se sente obrigada a manter.
    Como sempre esta vontade não é nem tem de ser a de todos ou cada um dos portugueses, mas a que se desentranha da massa da Nação.
    Antes e depois de Aljubarrota havia portugueses partidários do rei de Castela, e o próprio D. Nuno Álvares Pereira sentiria alanceado o coração de saber irmãos seus lutando pelo rei estrangeiro.
    Em 1580, em 1640 também nos dividimos: membros do clero e da nobreza foram vítimas da dificuldade de ver claro em certos transes históricos, sobretudo se interesses elevados de qualquer ordem começam pesando na balança dos juízos, e a empecer as deliberações a que trazem em seu seio riscos da vida e da fortuna.
    Mas os que, tendo à frente Álvaro Pais, quiseram que D.João, Mestre de Aviz, fosse proclamado «regedor e defensor do reino»; os que seguiram D. António, Prior do Crato; os que apoiaram e fizeram valer o grito dos fidalgos conspiradores da independência, em 1640, tiraram do seu mesmo desinteresse aquela clara visão do imperativo nacional que irresistivelmente os levou a esquecer a desproporção das forças e dos meios, os perigos da aventura e os benefícios que puderam usufruir de outras soluções.
    Não há dúvida de que, homens de escol nas letras, na política, nas armas o guiaram para as resoluções e vitórias definitivas, mas é preciso crer, em face de tais exemplos, que o povo é pela simplicidade da sua alma e espontaneidade dos seus sentimentos, a fonte sempre viva do nosso nacionalismo.
    Que importa que no presente momento histórico não seja igualmente vista por muitos a necessidade e grandeza da obra nacionalizadora em marcha, se o povo tem a intuição duma época decisiva da nossa vida e de que por este caminho se retoma o velho rumo da história pátria!?
    Eis porque se pensou que a festa de hoje deveria ter o cunho de festa popular.
    Festa popular e festa de mocidade. Nuno Álvares tinha vinte e três anos quando da revolução em Lisboa, e 25 em Aljubarrota; D. João I, 25 ao ser proclamado defensor do reino e 27 na segunda daquelas datas. O estado maior do Condestável eram rapazes de pouca idade, com o espírito aventuroso e irrequieto dos jovens, insofridos nas pelejas, mas obedecendo cegamente ao chefe. Com estes se fez a campanha e se assegurou a independência de Portugal.
    Hoje como então se exige espírito novo para fazer a revolução nacional o espírito novo é mais fácil encontrá-lo em novos que em velhos, ainda que haja velhos com mocidade de espírito e moços gastos por interesses e preocupações que não costumam ser da sua idade. É, porém, essencial que o espírito da mocidade seja por nós formado no sentido da vocação histórica de Portugal com os exemplos de que é fecunda a História, exemplos de sacrifício, patriotismo, desinteresse, abnegação, valentia, sentimento da dignidade própria, respeito absoluto pela alheia.
    Facto cheio de ensinamentos é o comemorado hoje: homens que sirvam de exemplo para a nossa formação esses que, à volta de D. João I e do Condestável, maravilha não lhes tocaram nem os puderam diminuir. Sobretudo esse Condestável D. Nuno, depois Frei Nuno de Santa Maria, guerreiro e monge, chefe em maus anos seus bens pelos mesmos que derrotara em batalhas para que não mandassem na sua terra, erguido sua valentia no altar de Pátria como a Igreja o havia de erguer pelas suas virtudes nos altares da fé, cheio de honras e riquezas e enterrado em vida no Convento do Carmo, na dura estamenha de frade, quando depois de Ceuta lhe pareceu já não ser necessária a espada para defesa da Pátria, mas disposto de novo a vestir as armas se el-Rei de Castela a alguma vez tentasse invadir Portugal.
    Por estes motivos os sítios de Aljubarrota e a Batalha devem ser os lugares de entre os eleitos para as grandes peregrinações patrióticas, e eu quisera que no próximo ano ali acorressem de todos os cantos de Portugal, milhares, centos de milhares de portugueses de hoje, sobretudo a juventude, para vivificar e robustecer ao calor dum passado heróico a sua devoção patriótica.
    E, visitados os campos da luta, entrariam, devotadamente na igreja do Convento da Batalha que, ao contrário da do Escurial de Filipe II, lúgubre e apropriada para as exéquias dum grande rei, é clara e triunfal, como se não fosse feita para a oração de todos os dias mas apenas para o solene Te Deum das grandes e magníficas vitórias.
    Nunca passo ali, mesmo apertado pela estreiteza do tempo, que não me sinta obrigado a parar, a entrar e pisando a campa rasa do Rei de boa memória e parece ainda guardá-lo na morte, penetrar comovido na capela do Fundador.
    Aí se encontram os restos mortais de D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, e à roda a «ínclita geração de altos infantes»; ali repousam os que consolidaram a independência de Portugal, se assentaram as bases da sua grandeza futura.»

    Oliveira Salazar, discurso del 14.08.1935

  2. #2
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    A LIÇÃO DE ALJUBARROTA


    Já era muito o poder dizer-se com verdade que a batalha de Aljubarrota consolidou a independência de Portugal. E, todavia, o significado da batalha é muito mais vasto e profundo. Naquela meia hora escassa de 14 de Agosto, ao cair da tarde, decidiram-se, afinal, os destinos do mundo: — e não pode ser-nos estranho, a nós, que mãos portuguesas então moldassem as condições em que havia de basear-se o mundo moderno.
    Basta reparar que, libertando Portugal das hegemonias de Castela, ao mesmo tempo se definiam as circunstâncias em que haveriam de desenvolver-se a actividade de Portugal, alongando-se para o mar, e a de Castela, lançando as bases da Espanha futura.
    Pensando bem, a vitória de Portugal em Aljubarrota corresponde ao triunfo da civilização — porque tão necessária era à civilização do Ocidente a independência de Portugal como a de Castela. Por isso é que, providencialmente, a fortuna das armas se inclinou no mesmo sentido civilizador, afinal, em Aljubarrota como em Toro.
    De facto, se os castelhanos tivessem vencido em Aljubarrota, os portugueses não poderiam, naturalmente, lançar-se na empresa incomparável dos Descobrimentos; e não deve esquecer-se que as preocupações imperialistas de Afonso V (que foram desfazer-se em Toro) por algum tempo afastaram Portugal da preocupação dominante dos Descobrimentos.
    Ora não é, com certeza, frenesim do sentimento nacionalista exacerbado o reconhecer-se que seria bem mais pobre a história do mundo se os portugueses (seguidos, como discípulos, pelos espanhóis) não tivessem escrito as páginas insuperáveis dos Descobrimentos e da colonização.
    Não devemos ter pejo de pronunciar estas palavras sonoras a propósito de um acontecimento cujos objectivos e cujas consequências se insiste em querer limitar apenas (se pode dizer-se apenas) a Portugal.
    A verdade é que mais de cem anos de decadência (e, o que é pior, de conformidade com a decadência) nos fizeram crer na limitação, quase provinciana, da acção histórica de Portugal. Se já nos não considerávamos capazes de executar grandes acções no mundo, era natural que não abrangêssemos em toda a sua maravilhosa amplitude a actividade ecuménica que havíamos desenvolvido durante séculos.
    Ora Aljubarrota está no começo — é o primeiro estádio e a condição fundamental dessa actividade. Por ela voltámos um dia, magnificamente, as costas à Europa, debruçando-nos para os mistérios do mar, no sonho das desconhecidas estradas da civilização que íamos descobrir, e nos pudemos alhear das guerras civis e de religião que, durante séculos, desperdiçaram as forças criadoras das nações europeias e esfarraparam a túnica inconcussa do Salvador, quebrando a unidade espiritual do mundo civilizado.
    Enquanto se desfazia assim ou se diminuía a cristandade, perdendo-se o sentido de solidariedade fraternal que deveria unir as nações cristãs, Portugal tomava para si a missão inexcedível que o Senhor destinou aos Apóstolos e dilatava por toda a terra a Fé e o Império, lembrado de que à sombra da Igreja se criou e cresceu a sua glória e se firmava a sua grandeza.
    «Miles Christi» — verdadeiramente o foi Portugal então; e não seria em vão que os portugueses de Aljubarrota tinham já a comandá-los para a vitória um herói que era um santo.
    Aljubarrota abrange toda a história portuguesa — é da meia dúzia de marcos que definem os destinos dos homens na história. Recolhamo-nos agora em meditação — e que os mortos ressurjam diante de nós, para que, no pensamento do que o fizeram, seja mais rigoroso o nosso esforço e seja maior a nossa esperança.
    Manuel Múrias
    (In A Voz, n.º 3050, pág. 3, 17.08.1935)


  3. #3
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    EM QUE CONSISTE EXACTAMENTE O PERIGO ESPANHOL

    Por Henrique Barrilaro Ruas
    Quando dois impérios se conjugam, e o menos forte se submete ao mais forte, os terceiros têm tudo a perder

    ...o “perigo espanhol” é hoje, numa Europa outra vez egoísta e carolíngia, que se confunda Portugal com o (aliás, nobilíssimo) Euzkadi.

    O “perigo espanhol” é doença quase endémica entre portugueses. A bem dizer, só recentemente, com o fenómeno um tanto snob do anti-nacionalismo, é que se tem perdido essa antiga sensação. Pessoalmente, com sangue materno de origem espanhola (mas andaluz – de ascendência genovesa – e basco), com uma educação de patriotismo quase romântico, com muita acentuada atenção aos factos históricos mais simbólicos, devo confessar que sempre senti esse perigo e a vontade de o enfrentar. Mas nunca deixei de ter simpatia e admiração pela Espanha, e sempre tenho procurado levar os meus amigos mais exaltadamente desconfiados e hostis a aceitarem que os Espanhóis não são um perigo por odiarem Portugal, mas por amarem Portugal inadequadamente, ou de modo insensato.
    Ao longo dos tempos, o “perigo espanhol” manifestou-se de várias maneiras: desde o altivo paternalismo de Afonso VII (apesar do encontro de 4 e 5 de Outubro de 1143), até à paixão incontrolada de João I ou de Filipe II; desde o absorvente imperialismo de Filipe IV até à idolatria napoleónica de Godoy; desde o insolente intervencionismo de Afonso XIII até ao de Franco (já perto de morrer).
    De todas essas modalidades, nem todas elas postas em prática ou sequer experimentadas, a mais grave terá sido a de Godoy. Porque foi então que o imperialismo castelhano (muitas vezes apenas sonhado) se conjugou com outro imperialismo mais poderoso, e um e outro decidiram acabar com Portugal. E também porque, de esse absurdo e vergonhoso conluio, fica no corpo de Portugal a “chaga do lado”: ainda hoje, Olivença está sob o domínio espanhol.
    Direi, pois, que acredito no “perigo espanhol”. Direi que, para mim, o perigo espanhol está mais forte, mais opulento, mais complexo e mais extenso; porque se confunde com o que chamo o perigo europeu, que para nós, portugueses, está propriamente representado por aquele primeiro perigo. Estou convencido de que os espanhóis aceitaram facilmente o projecto europeu (que não parecia poder ser simpático ao seu profundo e sensível nacionalismo), exactamente por assim se lhes oferecer a ocasião propícia para pôr em prática o antigo sonho da unidade peninsular. Foi uma coisa que logo entendi (ou intuí) quando, em 1948, ouvi Denis de Rougemont defender, na Cidade Universitária de Paris, a tese da Federação Europeia. Proposta pelo orador a sua visão da futura Europa, a imensa maioria da larga assistência (em que havia bastantes espanhóis) votou a favor, contra dois votos (o meu e o de uma belga) e com meia dúzia de abstenções, algumas das quais eram espanholas. Nunca mais deixei de compreender como coisa natural a posição espanhola favorável à europeização crescente.
    Quando dois impérios se conjugam, e o menos forte se submete ao mais forte, os terceiros têm tudo a perder. O absurdo tratado de Fontainebleau não foi avante. Mas o tratadozinho de Badajoz, que devia ser desfeito no Congresso de Viena, como primeiro ensaio da destruição de Portugal por Napoleão e Godoy, ultrapassou vitoriosamente a barreira da Política geral, e ainda hoje pesa nas relações luso-espanholas. Tal foi a força dessa coligação imperialista.
    Mas eu prefiro abordar o tema numa perspectiva diferente. Não a partir de experiências, de casos concretos, de anormalidades, mas antes a pensar em grandes linhas da História. No rosto positivo da História.
    O que mais importa, penso eu, é considerar o que é que está – ou pode estar – em perigo, quando se fala em “perigo espanhol”. Uma coisa é ver, conhecer o perigo em si mesmo, na matéria que o compõe, nas formas que tem assumido ou pode vir a assumir. Outra coisa, bem mais interessante, é saber em que consiste esse perigo quanto ao que é ameaçado. (Há fortíssimas tempestades que varrem os desertos e os mares e as montanhas – e que nada ou quase nada significam para a gente humana. Há tempestades – ou sismos – bem mais pequenos em si, e que provocam terríveis desastres para a humanidade.) Interessa, pois, para pesar o “perigo espanhol”, olhar claramente para aquilo que está ou pode estar em perigo.
    Neste sentido, ao menos para nós, portugueses, o “perigo espanhol” ganha significado bem concreto, e revela uma inesperada transcendência.
    1. “Perigo espanhol” é negar, ou contradizer, ou pôr em causa, ou desprezar a soberania do povo português. Pode ser que, para alguns grandes povos, a soberania não tenha importância essencial. Mas nós, portugueses, aqui, na Península, sempre precisámos dessa alta muralha, dessa defesa insubstituível, desse sinal esplêndido. Quisemos a independência – e não foi por capricho. Ganhámos a independência. Criámos o Pacto Sucessório, que iria permitir a D. Afonso Henriques a Conferência de Zamora e a espantosa salvação do reino quando do desastre de Badajoz.
    Criámos um vasto sistema de alianças de base matrimonial, dentro e fora da Península.Criámos a Aliança Inglesa (que já tem formas vivas no primeiro reinado), que nos vai ajudar a contra-balançar o poderio castelhano ainda em tempos de D. Fernando. Organizámos as Forças Armadas com estruturas defensivas que tinham atingido, no reinado de D. Sebastião, tal densidade e qualidade que nos viriam a dar a vitória da Guerra da Restauração e nas Invasões Francesas.
    2. “Perigo espanhol” é negar ou pôr em dúvida a realidade comunitária dotada de consciência “para-nacional” (Pierre David) e que constituía já uma “república” antes de assumir a forma de Estado nacional. (De certa maneira, essa comunidade tinha por fundamento os Lusitanos de Viriato e, como reino dos Suevos, chegara a aliar-se ao Império Romano do Oriente.)
    3. “Perigo espanhol” é, também, negar ou contradizer, ou sobretudo, menosprezar como ornato barroco o carácter institucional permanente do centro-cume do Estado nacional: uma realeza hereditária mas aberta ao critério absoluto do Interesse Nacional, como se viu em 1245, em 1383-85, em 1640-1641, em 1667-68, em 1698, e na controvérsia de 1826-34. Abater ou conservar abatida essa instituição cria uma forma notável de “perigo espanhol”, sempre que a Espanha é regida em monarquia. Porque logo Portugal tende a ser tomado como análogo à Galiza, ao País Basco, à Catalunha...O que já tem visto e sofrido, de vários modos; por exemplo, em Santiago de Compostela, num falhado “frente a frente” do Rei de Espanha com o Presidente Jorge Sampaio.
    4. “Perigo espanhol” é, também, negar, adormecer, pôr em banho-maria a indiscutível prioridade portuguesa das Descobertas marítimas, na colonozação sistemática, na evangelização permanente fora da Europa. Esquecer que os arquipélagos da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde, foram os pioneiros da Cultura Europeia (como tal nascente) na época em que o Renascimento dava aos europeus a auto-consciência.
    5. “Perigo espanhol” é negar ou esquecer que foi Portugal que renovou a Historiografia europeia, dando-lhe dimensões de universalidade, apenas comparável àquela que marca os primeiros séculos do Cristianismo.
    6. “Perigo espanhol” é ignorar ou desprezar a origem portuguesa de certas formas culturais que vão estar presentes do Extremo Oriente ao Extremo Ocidente e têm pontos altos o culto ao Espírito Santo, a solidariedade comunitária, o carácter festivo do bem-fazer, a igualdade social própria das Santas Casas da Misericórdia.
    7. “Perigo espanhol” é fazer-se alguém surdo à língua portuguesa, nossa “pátria”, supor indiferente à riqueza da humanidade que entre os Trovadores e Rosalía de Castro se estendesse um imenso deserto de silêncio – ou de canto e discursos castelhanos -, ou se pudesse ouvir o Cancioneiro Geral, e Fernão Lopes, e o Leal Conselheiro, e a Menina e Moça, e Gil Vicente, e Barros, e Camões, e Vieira, e Rodrigues Lobo e Bocage e Garrett e Camilo...
    8. “Perigo espanhol” é fazer de conta que a acção dos Portugueses foi equivalente à dos Espanhóis na América do Sul, e que só por acaso é que metade desse continente constitui o Brasil, ao passo que a outra metade se divide em nove Estados nacionais e alguns territórios mal saídos do colonialismo.
    Ou seja, a visão ou descoberta do “perigo espanhol” em termos funcionais, ou de apreciação relativa, ou de dinâmica histórica, ou de polémica civilizacional, constitui virtualmente uma tragédia para a humanidade.
    Se o “perigo espanhol” tivesse sido eficaz, plenamente ou quase vitorioso, não só o Povo português como, em diversos graus, muitos outros povos, vastíssimas regiões do mundo, teriam perdido ou nunca teriam alcançado certos bens políticos, económicos, culturais, espirituais, de altíssima importância. Tanto mais que não podemos esquecer o que significa prioridade portuguesa para uma Europa habituada a viver e a morrer sobre si mesma, inegavelmente engenhosa, artística, “sofisticada”, capaz de se inebriar com os perfumes do seu próprio corpo e do seu próprio espírito, provavelmente apegada para sempre à deslumbrante contemplação do umbigo...
    Sem Aljubarrota, sem Montes Claros, sem as Linhas de Torres (tornadas necessárias também pela convergência do “perigo espanhol” com o, então campeante, perigo francês) a já grande ameaça que acompanha quase sempre a nossa História teria instalado no mundo um “Portugal” bem diferente, um “Portugal” paralelo, ou sombra, de Espanha.
    *
    Em 1949, no mês de Julho, reuniu-se perto de Salzburgo o 1º Congresso das “Nouvelles Equipes Internationales”, de raiz democrata-cristã e federalista. A convite da delegação francesa, e apesar de ter declarado não ser democrata-cristão (mas cristão social) nem federalista-europeu, desloquei-me de Paris (onde terminava dois anos de estudos) e tomei parte nos trabalhos, na qualidade de observador português. (Era, de facto, exemplar único.) Tive a oportunidade de, durante alguns dias, conviver com dois delegados do País Basco, um dos quais era irmão do Presidente Aguirre (então residente, de preferência, em Biarritz) e o outro se chamava (o nome tornou-se, há poucos anos, muito conhecido) Iñaki de Rentería. Este último tinha estado, pouco antes, nos Pirenéus, como guerrilheiro anti-franquista. Ambos me diziam (além de outras coisas que para este caso interessam menos) que o problema histórico português – o problema da sua soberania plena – era completamente diferente do problema basco. Porque Portugal sempre tivera política diplomática própria, e tambem porque havia o Ultramar. Estou a vê-los, na Áustria, e, dias depois, em Paris, na própria casa do Presidente Aguirre, a explanar estas e outras ideias claras e distintas. As fotografias que deles conservo avivam a recordação pessoal. E acentuam, em diferente perspectiva, os traços essenciais da questão que nos ocupa. Porque o “perigo espanhol” é hoje, numa Europa outra vez egoísta e carolíngia, que se confunda Portugal com o (aliás, no bilíssimo) Euzkadi.
    Tal confusão (ou outras semelhantes a ela) não depende necessariamente de Espanha. Pode ser obra dos Portugueses. Como todas as versões do “perigo espanhol” que ao longo deste escrito fomos apresentando.

    (In História, Novembro 2002, pp. 34-37; com algumas correcções introduzidas pelo Autor)

  4. #4
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Face ao Complexo do «Complexo Anti-Espanhol»

    Teremos de ter consciência de que, em termos de relações internacionais, Portugal e Espanha estarão juntos na maior parte das vezes. Mas, possivelmente outras tantas, encontrar-se-ão em lados diferentes, na defesa dos respectivos interesses, no intenso quadro competitivo de uma península económica e até culturalmente multilateral.
    Actualmente, a propósito de qualquer análise sobre as relações entre Portugal e Espanha que uma pessoa arrisque abordar, não se regozijando com a atitude do nosso vizinho, mas culpando-o por nos ter prejudicado, é muito «politicamente correcto» acusá-la de ter o «complexo anti-espanhol», ou seja, de ver na Espanha a principal razão das nossas dificuldades. São modas… O politicamente correcto aconselha, igualmente, a dizer mal dos americanos, em quaisquer circunstâncias…
    Existem comentadores que não resistem a navegar nesta onda. Para eles, é premissa indiscutível que os nossos vizinhos são sagazes e activos, ao mesmo tempo que solidários e bondosos, portanto incapazes de defender os seus interesses com prejuízo dos nossos. Pelo contrário, os portugueses são uns mal agradecidos que, ainda por cima, dizem mal de quem estaria sempre preocupado em ajudá-los.
    A simples ameaça de ganhar o rótulo de ter o «complexo anti-espanhol», repercute-se de várias formas nos portugueses: silêncio envergonhado sobre o nosso relacionamento peninsular, radicado num indefinido sentimento de culpa; atitude permanentemente masoquista, a propósito de tudo que respeite as questões que afectem simultaneamente Portugal e Espanha; ou mesmo um complexo de inferioridade face aos espanhóis, com a predisposição de ceder à sua vontade, certamente mais sábia (?) e mais útil (?) aos nossos interesses que a nossa…
    Por vezes, este comportamento tem origem em motivos genuínos de quem pensa que um único espaço político estatal alargado ao todo peninsular melhoraria o bem-estar dos portugueses, ou então que nos seria benéfico serem outros a governar-nos, em vez de nós próprios. Em outras ocasiões, trata-se simplesmente de fraqueza e falta de coragem. Frequentemente, tem por justificação a barragem de acusações a que se sujeita quem tenha a «triste» ideia de acusar os espanhóis de alguma coisa, por mínima que seja. Isto conduziu a outro complexo, actualmente bem mais dominante do que o «complexo anti-espanhol» - o complexo do «complexo anti-espanhol». É claro que este complexo, incentivado pêlos espanhóis sempre que exista oportunidade, é muito vantajoso para os empresários do país vizinho e para certos empresários portugueses também beneficiados, assim como para a direcção política espanhola em funções, cuja postura não se altera significativamente com mudanças de governo: estilo mais soft com os socialistas e mais hard com os populares. É curioso assistir à forma como reage alguma imprensa do país vizinho, quando existe algum clamor público em Portugal, à volta de queixas com o comportamento do seu governo ou de alguma sua empresa.
    Entre responsáveis portugueses, são inúmeros os exemplos deste complexo. Tanto nas relações de natureza política, como nas económicas e até nas culturais.
    Tem sido comum o governo português fingir que não existem problemas. O caso de Olivença é paradigmático. Sempre que alguém ousa levantá-lo, como a Assembleia da República, legalmente forçada a pronunciar-se na sequência de uma petição que lhe foi apresentada, o governo assobia para o lado, fazendo de conta que o assunto não é com ele.
    Ora, Olivença é um potencial foco de tensão entre os dois Estados ibéricos. Qualquer líder populista com aceitação pública pode usar este assunto para incendiar os ânimos. Aliás, um prestigiado diplomata espanhol retirado já insinuou esta hipótese, quando afirmou a necessidade de coerência por parte de Espanha, em relação a Gibraltar, Olivença e à situação de Ceuta e Melilha. Embora a cada um destes casos correspondam níveis bem diferente de preocupação e de intensidade conflitual.
    Existem outros exemplos políticos, alguns dos quais verdadeiramente lesivos do interesse nacional português. Como o posicionamento de Portugal nas sucessivas negociações, a propósito do caminho-de-ferro de elevada velocidade: nos, aparentemente, predispostos a ceder, apresentando posições de compromisso logo nas primeiras propostas; os vizinhos com posições iniciais fortes, como se fossem factos consumados.
    Ou na condescendência da participação na última cimeira ibérica das lideranças políticas das regiões autónomas espanholas fronteiriças, criando a imagem de que Portugal se rebaixava a este nível. É certo existirem temas que aquelas regiões precisam de negociar com a sua contra-parte portuguesa. Mas este problema tem outra solução - criar urgentemente regiões administrativas, em Portugal, com base nas regiões de coordenação e desenvolvimento regional, por um lado, e estabelecer reuniões periódicas entre as regiões económicas existentes no conjunto peninsular (todas as espanholas, os Açores, a Madeira e o continente português, este representado por um ministro de Estado coordenador, como região económica), onde se tratariam assuntos de ordenamento do território, comércio, turismo, etc., que fossem da sua competência.
    A cimeira política manter-se-ia no modelo tradicional - apenas com os governos de Portugal e Espanha, a fim de debaterem os problemas que lhes correspondem, com a autoridade soberana que detêm. Cada um procurando, naturalmente, o reforço dos seus interesses, no sentido do aumento do bem-estar e segurança dos respectivos povos, como é sua função. Isto não obsta que, a título de assessoria e não como participantes políticos, elementos de algumas regiões (de Espanha e de Portugal) apoiem os líderes dos Estados, em pontos específicos da agenda.
    Também no plano económico têm sido visíveis comportamentos timoratos e atitudes de lamento e/ou submissão, em relação a interesses económicos espanhóis. Se é certo que o lucro é um objectivo central de qualquer actividade económica, não é menos certo que ele, além de não ser o único, pode ser procurado com uma visão que considere o interesse nacional, a exemplo do que fazem alguns dos nossos mais reputados e eficientes empresários.
    Estão a surgir indícios de que esta onda do politicamente correcto está a mudar. No respeitante ao complexo do «complexo anti-espanhol», parece que a profunda crise económica que o país atravessa está a despertar forcas inusitadas no sentido de o limitar, senão eliminar. Passando o discurso e a acção a basear-se apenas no interesse de Portugal, mesmo que ele seja visto e proclamado pêlos nossos vizinhos como prejudicial ao interesse de Espanha. É assim que os espanhóis procedem connosco.
    Teremos de ter consciência de que, em termos de relações internacionais. Portugal e Espanha estarão juntos na maior parte das vezes. Mas, possivelmente outras tantas, encontrar-se-ão em lados diferentes, na defesa dos respectivos interesses, no intenso quadro competitivo de uma península económica e até culturalmente multilateral, de uma União Europeia a expandir-se e a ser progressivamente mais exigente, e de uma organização mundial do comércio onde aumentam os produtores com vantagens comparativas superiores às nossas.
    Entre os sinais, refiro a crescente abordagem objectiva, sem «complexo do complexo», de problemas que se colocam aos dois vizinhos ibéricos. Tanto por jornalistas, como por comentadores, empresários e economistas. Mas o mais significativo, a manter-se o rumo iniciado, sem exageros continentalistas desequilibrados composições atlantistas indispensáveis para nós (América do Norte, América do Sul e África são áreas vitais na nossa política externa), é o sinal político transmitido pelas recentes viagens a Espanha do Presidente da República e do primeiro-ministro de Portugal.
    Foi possível ver firmeza, acção dinâmica e ofensiva, juntamente com a habilidade diplomática e a cortesia adequadas a vizinhos, aliados e amigos. E não uma posição defensiva, estática e apenas reactiva. Duas das declarações de Sócrates ao El País sintetiza na linha de rumo que nos é conveniente. Por um lado, Espanha é a nossa primeira prioridade em política externa, o que é uma verdade que a História confirma exaustivamente. Sendo a Espanha o nosso primeiro problema e maior preocupação, seria muito estranho que não fosse a primeira prioridade. Por outro lado, foi dito claramente aquilo que há muito deveria ter sido dito pelo primeiro-ministro (já tinha sido afirmado pelo PR): «o que queremos é que o mercado espanhol se abra da mesma maneira» que o nosso se tem aberto.

    - Gen. Loureiro dos Santos (Jornal PUBLICO) (24/04/2005)

  5. #5
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    A Nova Aliança

    Ao Rafael Castela Santos

    Não me refiro À Nova Aliança. Escrevo, tendo presente a obra notable que António Sardinha nos legou, «A ALIANÇA PENINSULAR», em que propunha, como alternativa à Aliança Inglesa, que não o satisfazia, um compromisso político e estratégico de acção comum dos dois países ibéricos, que dessem continuidade aos elementos civilizadores comuns que, na História, haviam guiado o seu desmpenho.

    Sardinha escrevia em época na qual ainda havia potências europeias que contavam. Ao teorizar o enlace Ibérico, doutrinava contra os iberismos, quer o integrador, ainda fresco no pensamento de Afonso XIII, deixado claro na entrevista de Miramar, quer os federalistas, propugnados pelos republicanos oitocentistas de Cádis, como pelos socialistas do Século XX e, ininterruptamente, por figuras gradas das maçonarias de ambas as Nações. Começa por desmontar o atávico espantalho do «perigo espanhol», recordando-nos que, a partir de de D. Fernando e até que o projecto de união concebido por D. João II e os Reis Católicos teve o trágico fim que se sabe, Espanha viveu também um "perigo português" de intervenção e intentada hegemonia. Contrapõe depois a oportunidade falhada, com Filipe II (primeiro de Portugal), em que os dois reinos mantinham a sua especificidade sob Coroa e imperativo estratégico comuns, à perversão do sistema com que Olivares, no puro intuito de melhor servir o seu Rei, Filipe IV, procurou passar Portugal de Reino a província. Prossegue, pondo a nu a lenda negra, espalhada por servidores de religiões anti-católicas, como Guilherme o Taciturno, ou rivais amorosos de Filipe II, quais Antonio Perez. E mostra como também, por tabela, nos tocou um tanto dessa propagandeada difamação.
    No Século XX, já falecido o Mestre Integralista, dois génios políticos, Franco e Salazar, sempre estribados na Arte do Possível, conseguiram uma versão reduzida à mínima expressão do entendimento hispânico, consubstanciada na Amizade Peninsular, o qual, limitado como era, deu no entanto para preservar as suas Pátrias, acossadas por compromisos internacionais antagónicos, de se martirizarem num conflito em prol dos interesses de outros.
    E hoje? Para quem, como eu ama a Espanha, tendo lá passado férias anos a fio, seria sedutor actualizar o grande ensinamento que venho evocando. Quando Sardinha redigia o seu tratado, Portugal tinha um Império imenso. Agora, é o que se sabe. A pujança da economia espanhola, bem como a diversa dimensão de ambos os Países, poderá inspirar temores. Mas é preciso não esquecer que Espanha também sofreu. Além da perda das possessões marroquinas, que eram essenciais na doutrinação do escritor português, vive um momento em que o antiquíssimo problema das "nacionalidades" não encontra em Madrid um poder disposto a resistir ao desmoronamento com que ameaça. Portugal poderia, através de um programa de acção comum com o seu Grande Vizinho, desviar as energias das lutas intestinas para objectivos mais amplos de afirmação.
    Que objectivos seriam esses? Decerto o da defesa de interesses económicos comuns ameaçados, no seio da Europa pretensamente unida, por Europeus de outros quadrantes, insensíveis que são ao que é essencial à sobrevivência digna do modo de vida dos membros do Sul do Continente. Mas mais, muito mais, poderia a unidade da nossa acção constituir-se, neste planeta unipolar, como um derradeiro nicho de resistência aos hedonismos que investem contra os restos da Civilização Católica que nos formou e onde creio estar a Verdade: o de origem norte-americana, expresso no consumismo desenfreado e o que alastra a partir da Europa reformada e pretende utilizar as instituições europeias para padronizar todos à sua medida - o do abortismo e da insensibilidade perante a manipulação genética, prestes a redundar na hedionda pré-programação.
    Claro que a afirmação enunciada estaria sempre dependente de termos em Madrid e em Lisboa políticos com estatura, precisamente o que nos vai faltando. Mas será bom que as ideias vão precedendo os Homens.
    Aqui lanço o meu repto a que outros, com mais dons, intervenham, no sentido de fortalecer o credo orientador com que, por enquanto, apenas podemos sonhar.
    Esperemos que, desta, como escreveu o Poeta, o sonho comande a vida


    Creo que la autoría de este escrito es de Paulo Cunha Porto en respuesta a un artículo mío contra el iberismo.
    Pido disculpas de antemano si estuviera yerrado en este punto y rogaría que me comunicasen el error sobre la autoría de este texto si así fuere.

    Rafael Castela Santos

  6. #6
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    A PROPÓSITO DO "IBERISMO"


    Há dias o Miguel Castelo Branco, na caixa de comentários deste blogue, instou-me que escrevesse sobre o "iberismo" — e que me pronunciasse sobre "a velha confusão entre a admiração e respeito pelos irmãos castelhanos e a submissão ao centripetismo da meseta".
    É, de facto, real a "imiscibilidade dos dois carácteres pensinsulares". Disso mesmo se deu conta, com extraordinário proveito dos poucos que o lêem, o eminentíssimo Francisco da Cunha Leão, filósofo, ensaísta e poeta, que integrou o movimento da Filosofia Portuguesa. Refiro-me a duas extraordinárias obras de sua lavoura sobre a identidade de Portugal: «O Enigma Português» e «Ensaio de Psicologia Portuguesa».

    Mas sem embargo da imiscibilidade dos carácteres, devemo-nos mutuamente uma relação de entendimento e amizade, povos vizinhos da casa comum europeia, tanto que — como o Miguel expressamente reconhece — "a comunicação literária entre os dois povos nunca conheceu dificuldades". E aqui vem a talhe de foice lembrar os vários portugueses que escreveram in utraque lingua, os expressivamente chamados escritores bilingues. Chamo logo à colação os poemas do condestável D. Pedro e mais os cancionistas áulicos de Garcia de Resende. E depois, não esqueço Gil Vicente, Sá de Miranda e Camões — as três sumidades do quinhentismo português. A coisa tornou-se tão geral e tão profunda que sobretudo na poesia a custo se lobriga algum quinhentista de nome que tivesse refugado a língua de Castela. Acrescento ainda os nomes de Gregório Silvestre, Jerónimo Corte-Real, Jorge de Montemor, Faria e Sousa. (Abro aqui um parêntese para patriotas assanhados: a excepção conhecida, que por insulada confirma a regra, é a de António Ferreira — que teimou em escrever em português e só português).
    Mesmo durante os 60 anos dos Filipes, a usança de grafar em castelhano continuou. Sobre a claridade da fama de vários escritores lusos tem-se posto a névoa do castelhanismo — tanto o literário, estranhável só para quem desconheça a evolução das letras portuguesas, como o politico, de quem perdeu a noção patriótica. Recorde-se o exemplo de D. Francisco Manuel de Mello (que participou nos combates da coroa espanhola contra os holandeses), Vasco Mouzinho de Quevedo, Francisco Matos de Sá, o comediógrafo Jacinto Cordeiro e o distinto Francisco Rodrigues Lobo. Diz-se que vergaram a cerviz aos Áustrias, reis intrusos do seu país, pondo a pena ao serviço e louvor deles. E fique claro que a voz dos citados não foi à desgarrada que cantou, foi em coro com toda a sorte de confrades de Apolo, do maior ao mais pequeno.
    Estaremos perante um delito de lesa-pátria? Não creio. Estava longe a reviravolta de 1640; chegara-se a aceitar sem repugnância o ceptro dos Áustrias, contanto fosse respeitado o humor dos portugueses, conforme dizia e praticava o diplomata Cristóvão de Moura. No fundo, é como hoje, quando se aceita a transferência da soberania para Bruxelas ou o fim da moeda própria como factos consumados e iniludíveis. E às vezes, até, como vantajosos para a Pátria.

    Ao tempo, a civilização de Castela, dominante em toda a órbita da península, irradiava mesmo fora dela. Sobre a França o castelhanismo exerceu o mais patente influxo; a sua grande literatura, desde Montaigne a Corneille e a Molière, bebeu à farta na fonte hispânica. O que os Rodrigues Lobos faziam, como fazem os de hoje, era imitarem a estranja. Cultural e mentalmente copiava-se o figurino de Espanha em tudo — nas artes, nas letras, nas ciências, nos usos e nos costumes. A cultura espanhola impôs-se então ao nosso país — como depois se impuseram sucessivamente as culturas francesa, inglesa e americana. No século XVII, Portugal fez-se parcela da Espanha menos pelo poder dos Filipes do que pelo deslumbramento pacóvio da gentalha. Admirámos a alta sociedade espanhola; a corte de Lisboa regulou-se pela de Valhadolid ou Madrid; a fidalguia portuguesa buscou viver à lei da nobreza de Castela. Bebemos a instrução na universidade espanhola, a famosa Salamanca, associada depois a Alcalá. O problema de Portugal é que andou sempre vestido de sobrecasaca estrangeira.
    Sei bem que a monarquia filipina também conquistou Portugal pela brecha da venalidade. Em 1580, nas Cortes de Almeirim, o dinheiro jorrou a rodos pelas bancadas tribunícias. Foi-se a votos. Contados os dedinhos no ar (ainda não havia papelinhos na urna...), o partido castelhano teve mais um. Nesse mais um, sumiu-se a independência pelo ralo da democracia. As famosas cédulas reais de Cristóvão de Moura circulavam pelas mãos corruptas de fidalgos, mercadores e magistrados. Não houve só vencidos, houve vendidos. Pessoas de muita honra e cabeça abraçaram o partido castelhano; tais, para não citar outros, Bartolomeu dos Mártires e Jerónimo Osório. E a plebe, segundo conta Oliveira Martins, aclamava o rei estrangeiro, vinha coroá-lo, saudá-lo, pedir-lhe a bênção. A vaidade nacional chegou a delirar até à megalomania; queria roubar o monarca à corte de Madrid. O patriotismo — na melhor das hipóteses — orça sempre por uns favores e uns privilégios. Concedidos uns e outros, adeus, ó Pátria, que eu vou fazer-me à vida!
    Tudo isto para chegar ao ponto. Eu celebro o 1.º de Dezembro , a data heróica de 1640, e nunca esqueço a dura e longa guerra sequente pela independência que os portugueses aguentaram com estoicismo e paciência de Job. Mas descreio das epopeias históricas seiscentistas, que nos oferecem um D. João IV redentor, levado em unanimidade ao trono pelo heroísmo do bom povo patriota. O facto é que a revolução encontrou o país dividido. Como de costume, alguns dos que mais loas haviam tecido aos Filipes foram logo os primeiros a abraçar a causa do Bragança. Outros, menos adesivos, admitiam de boamente a união hispânica, a união ibérica, desde que a ela presidisse a relativa autonomia política e administrativa. O Áustria era uma fatalidade histórica. Acho sinceramente que, num futuro próximo, novas levas de gente lusa entenderão o iberismo como uma fatalidade histórica. Uns por ignorância, outros por traição proverbial, outros ainda à cata do salário mínimo espanhol. Os portugueses estão cansados de soberania e independência.

    Bruno Oliveira Santos, bitácora NovaFrente (5 de Mayo, 2006)

    El artículo original se puede encontrar aquí.

  7. #7
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Pois mas se nao fosse Aljubarrota, isto não seria possível:

  8. #8
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Amigo Zegato, menuda colección de banderas masónicas.....Igual si el bando de la Beltraneja hubiera ganado en la guerra civil no se hubiere producido el tándem Castilla-Aragón y sí el Castilla-Portugal, como advierte hasta Sardinha. Aljubarrota fue una batalla medieval; como pudo ser la de Castilla-Navarra en Atapuerca o las mismas " banderías " de Oñates y Gamboas en las Vascongadas; que nada tuvo que ver en la conformación del gran imperio portugués. A menos, eso sí, que sucumbamos ante el " romanticismo nacionalista ".....

  9. #9
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Sobre todo llama la atención la bandera de Mozambique, que luce un fusil AK-47 (país de señores de la guerra y demás, parece que quiere representar), ya te pone en guardia para entender de que va el país.

  10. #10
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Aparte que el Imperio Portugués se fundó por la Monarquía Católica, la de la bandera blanca y la Ordem de Cristo; y no por la bandera republicana y masónica; cuyo débil estado fue asediado por determinadas potencias que se creían " amigas ", tales como la Pérfida Albión. Mezclar Aljubarrota en todo ello es un sinsentido más bien tóxico.

    Por mi parte, felicitar al amigo Boanerges por tan gratas aportaciones, muchas alejadas del " nacionalismo oficial " de cierta historiografía, de la que acá tampoco carecemos.

  11. #11
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    ESPANHÓIS: ELES VIERAM PARA FICAR

    Bruno Raposo e Arquivo CM
    Na última época de saldos, havia em Lisboa lojas de cadeias espanholas com letreiros a dizer ‘Rebajas’, como se estivéssemos em Madrid. Os castelhanos voltaram a invadir o País? Ainda não. Mas em pleno século XX Espanha quis anexar-nos duas vezes...
    São duas imperiais, por favor.” Pedro Vasconcelos, o gerente, faz soar um sintete, ‘dlim-dlim’, grita “Saem duas ‘canhas!’” e abre a torneira de pressão para encher um par de copos largos e rasos. Aqui ninguém bebe cerveja pelos copos finos portugueses. O balcão está coberto de pratos com pedaços de queijo, de enchidos, de carne, de calamares, presos a bocados de pão com palitos. Quem quiser ‘tapear’ – ou seja, comer as ‘tapas’ – pode servir-se à vontade: à saída, paga-se o número de palitos depositados num pequeno copo. Às 23h30, no Lizarran, restaurante-bar espanhol, na rua Latino Coelho, em Lisboa, o ambiente começa a aquecer.

    Quando Pedro Vasconcelos aumenta o volume da música que dá fama à casa, três raparigas de um jantar de aniversário sobem para as cadeiras. A música ‘Um Movimiento Sexy’ soa nas colunas e os convidados da festa, no meio do bar cheio de gente, coordenam as coreografias, movendo as ancas para um lado e para o outro. “Así, así...”, gritam. E escalam das cadeiras para cima das mesas. Uma das mulheres quase pisa o prato de outro conviva. Mas ninguém leva a mal. É uma ‘fiesta’ que atinge o clímax aos primeiros acordes de ‘Asereje’, a canção do trio feminino Las Ketchup, sucesso comercial hispânico na moda. Nesse momento, as coreografias aceleram em delírio e o mundo agita-se dentro do bar: novos e velhos, executivos engravatados e estudantes descontraídos – todos dão nas vistas em cima da mobília. É tudo muito efusivo, muito espanhol, embora sem a presença notória de espanhóis. Estamos numa sexta-feira. ‘Nuestros hermanos’ foram passar o fim-de-semana a casa.


    A AMBIÇÃO DO AVÔ BOURBON

    Poderia Portugal ser hoje um gigantesco Lizarran? Se não fossem os conjurados do 1 de Dezembro de 1640, que puseram fim ao domínio dos Filipes, estaríamos nós condenados a comer ‘tapas’ e ‘tortillas’ em vez de cozido à portuguesa e bacalhau com todos? É difícil responder. O certo é que a ameaça espanhola atravessou os séculos e voltou a estar presente 300 anos depois da Restauração. Apesar de o imaginário antiespanhol estar dominado desde a época medieval pelas lendárias espadeiradas da padeira, que desbaratou um grupo de soldados castelhanos em Aljubarrota, foi no século XX que a independência voltou a ser ameaçada pelo país vizinho. A invasão militar esteve por duas vezes – e não há muito tempo – nos planos de Madrid.
    Disso dá conta um livro editado pela Junta da Extremadura, apresentado em finais de Janeiro na Sociedade de Geografia de Lisboa. Na obra ‘El Império del Rey - Alfonso XIII, Portugal y los Ingleses (1907-1916)’, o historiador espanhol Hipólito de la Torre Gomez – professor na Universidade Complutense de Madrid –, demonstra que o perigo espanhol esteve muito mais presente do que pensam os portugueses. Nos anos que antecederam a I Grande Guerra, Afonso XIII – avô do actual rei Juan Carlos – fez saber da sua ambição para anexar Portugal. Em Inglaterra, Winston Churchill não se lhe opunha.

    Hipólito de la Torre Gomez refere que Afonso XIII de Bourbon, tomou muito directamente em suas mãos, quase como uma coisa sua, a ‘questão portuguesa’. E, a partir de 1909, deixou de esconder os seus propósitos de intervenção e anexação de Portugal. Nas vésperas do primeiro conflito mundial, o rei quase teve o beneplácito do Reino Unido. Nessa época, os dirigentes ingleses ponderavam escolher entre a aliança luso-britânica e o estreitamento de relações com Madrid, para que a Espanha não alinhasse com as potências da Entente, ao lado da Alemanha. Em 1912, Winston Churchill, 1º Lorde do Almirantado, escrevia: “Se tivermos de escolher entre a amizade de Portugal e a de Espanha, a de Espanha é de superior valor.” O futuro primeiro-ministro britânico sabia que uma aliança com o maior Estado Ibérico trazia vantagens na contenda que se avizinhava.

    Tomando consciência da posição vantajosa de Espanha, os líderes da jovem República portuguesa ansiavam por oferecer ajuda militar à Grã-Bretanha. Objectivo? O reconhecimento internacional do novo regime e a protecção contra Castela. Mas Churchill desprezou o aliado lusitano. “A nossa atitude em relação a Portugal deve ser fria e (...) devemos aceitar os menores serviços possíveis”, declarou numa carta a um governante britânico.

    Resumindo, “Portugal foi (...) objecto de uma espécie de persistente ‘negociação’ sugerida, informal e às vezes explícita, com as potências ocidentais, especialmente com a Inglaterra”, descreve Hipólito de la Torre Gomez. O historiador dá conta de que os ímpetos expansionistas do jovem monarca espanhol acabaram por ser travados por políticos mais prudentes. Do lado inglês, o subsecretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Eyre Crowe, dizia, nesses anos, que os desígnios de Afonso XIII sobre Portugal provavelmente permaneciam no reino da utopia e classificava o estilo do rei como impulsivo e irresponsável. Quando a sangrenta guerra das trincheiras começou a desenrolar-se em 1914, conclui de la Torre, “a neutralidade da Espanha acabou por tranquilizar Portugal”.


    A COBIÇA DO GENERALÍSSIMO FRANCO

    Mas o perigo espanhol não parou aqui. “Sempre que viu uma oportunidade para controlar ou até anexar Portugal, Espanha tentou aproveitá-la”, argumenta o historiador António José Telo, professor na Academia Millitar. A última vez que o Governo espanhol manifestou vontade em dominar a península foi na segunda metade de 1940, estava a II Guerra Mundial numa fase em que a máquina de guerra nazi ainda detinha alguma vantagem no desenvolvimento do conflito.

    Sem mostar qualquer gratidão pelo apoio de Salazar durante a Guerra Civil de Espanha, o número dois do regime e cunhado de Franco, Serrano Suñer, defendeu em Berlim, junto de Hitler, que, “numa Europa dominada pela Alemanha, era duvidoso que Portugal se mantivesse independente”, explica José Telo. Durante essa visita à Alemanha, Suñer fez saber que a Espanha achava que deveria fazer “pressão para Portugal se afastar de Inglaterra”. Mas foi o próprio Hitler a dizer que jamais os portugueses aceitariam tal proposta, pois perderiam de imediato o seu império.

    O cinismo na diplomacia é tanto que, enquanto em Berlim decorriam estas conversações, os espanhóis garantiam ao Governo de Lisboa que poderiam estar seguros, pois não representavam qualquer perigo para a soberania lusa... Mas a Alemanha perdeu a guerra. E os dois regimes ibéricos sobreviveram até aos anos 70, com mais ou menos proximidade – muitas vezes de costas voltadas –, mas sempre em paz.


    A CONQUISTA ECONÓMICA

    E hoje? O vizinho espanhol continua a ser essa temível ameaça? Há quem pense que sim, embora noutro plano. Passadas quase duas décadas sobre a entrada dos dois países na então chamada Comunidade Económica Europeia – sendo ambos membros da mesma estrutura militar (a NATO) –, é através da economia que Portugal sente o peso do irmão ibérico. Os portugueses não se encharcam em ‘tapas’ – apesar do sucesso dos restaurantes Lizarran –, mas compram muita roupa na Zara, comem muita fruta espanhola, e gastam dinheiro no El Corte Inglés.

    Aliás, a Avenida António Augusto Aguiar (onde fica esse grande espaço comercial), que curiosamente desemboca na Praça de Espanha, é a face mais visível do poder empresarial de ‘nuestros hermanos’. Em Madrid não há quarteirões inteiros de tiendas portugueses, mas em Lisboa sucedem-se as lojas espanholas entrecortadas por agências dos bancos Santander, Bilbao y Viscaya ou Totta. De cada vez que gastam cem euros no supermercado, os portugueses gastam 27 euros em produtos espanhóis, declarou, recentemente, Martins da Cruz, Ministro dos Negócios Estrangeiros. A Espanha é o segundo cliente de Portugal, absorvendo 19% das exportações nacionais; mas é, de longe, o maior fornecedor do País.

    Num mercado livre vencem os mais fortes e competitivos. Por isso, Espanha, com uma economia cinco vezes maior do que a portuguesa, exerce uma influência esmagadora sobre o rectângulo encostado ao Atlântico (ver quadro). A força dos grupos empresariais hispânicos é tão poderosa que um conjunto de empresários e académicos entregou ao Presidente da República e ao Primeiro-Ministro, no ano passado, o já célebre Manifesto dos 40, para a manutenção dos centros de decisão em mãos nacionais.

    “Embora nesse documento nunca seja mencionado o nome de Espanha, é o país para o qual será mais fácil perder os centros de decisão”, afirma António Nogueira Leite, um dos subscritores desse texto, professor na Faculdade de Economia na Universidade Nova e ex- secretário de Estado do Tesouro e Finanças de um Governo socialista. Se não houver uma estratégia bem definida, o grupo dos 40 teme que Portugal possa perder o poder de decisão em áreas tão sensíveis como as telecomunicações, a energia ou as infra-estruturas.

    “É um jogo económico, mas também uma questão política”, alega Nogueira Leite, dando como exemplo a cumplicidade que o governo espanhol mantém com os grupos privados no seu país: “Nenhuma empresa onde o governo queria tomar decisões foi parar a mãos estrangeiras.” Na sua opinião, é muito difícil entrar no mercado espanhol: “Há verdadeiros entraves a empresas portuguesas. Quando a EDP quis comprar a Hidrocantábrico não me pareceu que houvesse regras muito claras”, exemplifica.


    SOLDADOS DE UMA INVASÃO

    Em 2001, apesar destas queixas, Portugal foi o maior investidor estrangeiro em Espanha. Mas as diferenças perduram: enquanto do lado de cá há existem mais de três mil empresas espanholas, em Espanha as portuguesas não chegam às quatrocentas, comparava o jornal ‘La Gaceta de los Negócios’ há poucas semanas. A desproporção continua a ser enorme.

    Contrariando a opinião de uma parte dos empresários portugueses, Enrique Santos, presidente da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Espanhola, nega que as empresas portuguesas encontrem obstáculos no seu país. “O embaixador português em Madrid, Rosa Lã, pediu para sabermos junto dos nossos associados quais eram os problemas das empresas portuguesas em Espanha. Não conseguimos identificar quaisquer barreiras. O que encontrámos foi um mercado muito mais competitivo do que o português, em preços e qualidade. Os espanhóis compram as empresas portuguesas de forma legal”, acrescenta.

    “Só que agora, para além dos sectores onde tomaram posições importantes, como na banca ou no comércio, estão a investir na agricultura, comprando herdades inteiras no Alentejo, que vão beneficiar com a Barragem do Alqueva. São agricultores da vizinha Extremadura. Os terrenos aparecem no mercado e eles compram porque os portugueses não o fazem”, remata Enrique Santos.

    Num almoço organizado recentemente com mais de 200 empresários de ambos os países, Martins da Cruz, ministro dos Negócios Estrangeiros – que foi durante três anos embaixador em Madrid –, constatou o óbvio: “A Espanha tem mais importância para nós do que Portugal para os espanhóis.” Porém, achou exageradas as vozes incomodadas com o poderio do Estado vizinho: “Esta assimetria é por vezes mal percebida na nossa opinião pública, e até em alguns sectores da economia. Os empresários espanhóis são muitas vezes entendidos como soldados de uma ‘invasão’, ou como responsáveis de uma ‘deslocalização dos centros de decisão económica’ para o país vizinho”, ironizou o ministro, cuja aposta política passa pela diplomacia económica.

    Segundo Martins da Cruz, Portugal ainda pode crescer sete a 12 por cento nas relações comerciais com Espanha. Mas será isso que vai inverter os pratos da balança e pôr os espanhóis a comer cozido ou bacalhau – ou seja, a consumir mais exportações portuguesas? Pelo menos é unânime que falta alguma agressividade às empresas portuguesas para concorrerem no mercado ibérico.

    No andar de baixo do restaurante Lizarran concorrem as duas bandeiras, com vantagem para a portuguesa, que é enorme, ao lado da espanhola, bem mais discreta. Pedro Vasconcelos, o homem que pôs os portugueses a tapear, adora o nativos do país de Cervantes: “São mais educados do que os portugueses, mais arrojados, mais inteligentes, mais astutos, mais atrevidos”, mais tudo. À sua volta, a agitação continua. Serve um licor basco. Toca a sineta, ‘dlim-dlim’. E tira mais duas ‘canhas’, enquanto a clientela dança ao som dos ritmos ‘salerosos’.


    O QUE NÓS GOSTAMOS NELES

    Zara – As montras são apelativas, a roupa é moderna e barata, e o costume de lá comprar entrou nos hábitos nacionais. Homens e mulheres não dispensam a visita aos estabelecimentos do grupo Inditex (que em Portugal possui 152 lojas das marcas Zara, Massimo Dutti, Pull and Bear, Bershka, Stradivarius Oysho e Kiddy’s). São um dos símbolos da invasão espanhola, mas marcam de forma positiva o visual dos nativos lusitanos.

    El Corte Inglés – O projecto demorou 14 anos a concretizar, é o único da cadeia situado fora de Espanha, mas os consumidores portugue-ses, ávidos de centros comerciais, aprovaram o conceito. Mais de 15 mi-lhões de pessoas entra-ram no centro comercial em 2002. É obra. Mas os comerciantes do Porto já fizeram saber que não querem lá nenhum estabelecimento do mesmo género. Terão medo do quê?

    Tapas – Com atum, com queijo, com enchidos, com qualquer coisa, e acompanhadas de uma cerveja espumosa e de uma boa conversa, como fazem os espanhóis à noite – as tapas começam a ser apreciadas pelos petisqueiros nacionais. Bem haja quem as importou.


    Auto-estima – A exagerada auto-estima dos espanhóis pode estar no limite da arrogância, mas não deixa de ser invejável. Ouvem a música deles, dobram os filmes estrangeiros, traduzem tudo. Em Portugal, onde o discurso oficial parou no não perder o comboio europeu, se um político fizesse como Aznar, chamavam-lhe louco. Empolgado num comício da última campanha, ele gritou: “Vamos ser os melhores da Europa!”

    Las Ketchup – Não é molho para batatas fritas, mas o nome de um grupo de três raparigas mui guapas que interpretam uma cantiga impronunciável. O tema ‘Asereje’ é um sucesso mundial, e cada vez mais usado em toques de telemóvel. A coreografia com que as jovens portuguesas dançam a música é a herdeira da velha Macarena – lembram-se?


    O QUE ELES GOSTAM EM NÓS

    Luís Figo – Os catalães de Barcelona que o amavam passaram a odiá-lo quando se transferiu para o Real Madrid. Agora são os madrilenos que o adoram. Se não jogasse num campeonato como o espanhol, dificilmente teria sido considerado o melhor do mundo. É o maior embaixador de Portugal no país vizinho e, que se saiba, o melhor assalariado português a expensas espanholas. Nem Fernão de Magalhães terá conseguido tantas ‘prebendas’ em Castela...

    Delta – É difícil negar que o café em Espanha é péssimo. Depois de uma semana do outro lado, um português já desespera por uma bica verdadeira. Mas a empresa de Campo Maior é uma das maiores naquele mercado. Se os espanhóis gostam tanto de café português, pode ser que um dia apreciemos as bicas à espanhola. Seria um avanço nas relações ibéricas.

    Praia – Para muitos espanhóis da raia extremadurenha e mesmo de Madrid, as praias do litoral alentejano são um destino de eleição. Para os primeiros, o Atlântico fica mais perto do que o Mediterrâneo. Para os segundos, estes areais são como um paraíso, longe do confuso Sul de Espanha, mais parecido com o Algarve. Por isso é vê-los chegar ao Carvalhal, à Comporta ou a Milfontes nos fins-de-semana de Verão.

    José Saramago – Quando venceu o Nobel da Literatura, foi abertura nos telejornais espanhóis. Quando apresentou ‘O Homem Duplicado’ em Barcelona, não havia lugar no auditório para tanta gente. Casado com a espanhola Pilar del Rio, a viver nas Canárias, o escritor publica os livros em simultâneo nos dois lados da fronteira.

    Independência – Quem admira a independência portuguesa, não sem uma ponta de inveja, são os nacionalistas galegos, catalães e bascos. Numa manifestação recente na Galiza, após o acidente do ‘Prestige’, trabalhadores da televisão regional gritavam: “Menos mal que nos queda Portugal!” Numa das principais avenidas de Barcelona pode ler-se em Catalão: ‘L’autonomia que ens cal, es la de Portugal’ (‘A autonomia que nos faz falta é a de Portugal’). Por oposição, há um dito castelhano que fala de uma Espanha una e grande, de mar a mar, sem Portugal nem Gibraltar.


    Vítor Matos (Correio da Manhã, Magazine Domingo del 7 de Marzo del 2003)




  12. #12
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Yo no sé qué España ha visto este tal V. Matos, pero vamos, el decir que en España sobra la autoestima.....Me parece a mí que este tipillo no la ha visto ni en postales. Y si se cree que hay muchos españoles dispuestos a invadir Portugal, más de lo mismo. Confundir el " poder económico " con la " causa nacional " es propio de gringos. Claro que en el resto de las Españas también hay cocido....Y otra vez el " malvado castellano " que oprime a lusos, catalanes, gallegos y la madre que los parió a todos....En fin, las babas nacionalistas asquean demasiado con tanto tópico típico y tanta ignorancia. Le ha faltado alabar Methuen.....


    Boanerges, ¿ esto es de la derecha cavaquista ?
    Última edición por Ordóñez; 03/10/2007 a las 21:03

  13. #13
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Querido amigo:

    Ya le responderé con más calma, pero no. No es un representante estrictamente hablando de la derecha cavaquista. Es un representante de mucho del sentir de Portugal. Muchos portugueses, llevados del visceralismo y del tópico, piensan así de España y de los españoles. Consecuencias de la educación en el odio. Allá el odio y de este lado de la raya la ignorancia y el desprecio de Portugal. Así nos va.
    Voy a seguir colgando opiniones portuguesas sobre las relaciones entre España y Portugal, ángulos portugueses sobre España, sobre 1640 y sobre Aljubarrota. En algún momento intentaré poner un poco de síntesis de todo esto.
    Entretanto le dejo con el siguiente post.
    Un cordial abrazo, Ordóñez,

    RCS

  14. #14
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    A Restauração dos Valores

    Qual o sentido da comemoração no dia 1 de Dezembro? Mero saudosismo estéril ou defesa dos valores perenes?

    Talvez sejam estas as perguntas que se colocam milhões de Portugueses; perguntas essas que merecem uma resposta por parte daqueles que procuram um sentido para a mesma, ainda que essa resposta não seja politicamente correcta nem esteja na moda e que, falsamente, pareça não estar de acordo com a realidade contemporânea, ainda que se considere que devemos ceder sempre para perder menos... E o Outono dá-nos a lição da sábia natureza: "Quem vai com o vento é folha morta..."
    Não! Os Arautos d’El Rei não são oportunistas, não combatem fantasmas, mas sim os erros tal qual eles se nos apresentam nos dias actuais, os erros da modernidade, perante os quais não dobramos os joelhos, nem sequer um deles!
    Estes erros são o fruto de uma Revolução cinco vezes secular, à qual dedicamos a nossa atenção, realizando estudos e promovendo debates sérios e compenetrados.
    O homem contemporâneo coabita paredes-meias com hábitos e formas de pensamento resultantes da disseminação destes erros, e é contra eles que lutamos, sem medo, na esperança de uma verdadeira Restauração. Restauração não apenas do nosso País, mas daquilo que resta da Civilização Ocidental e Cristã, que procuramos amar e servir dedicadamente.
    Se para os heróis de 1640 valia a pena correr o risco das suas vidas para libertar o Reino de um jugo injusto, que queria transformar Portugal em mera província, que dizer, nos dias actuais, da posição que deve ser tomada na defesa da nossa soberania, cada vez mais ameaçada por poderes alheios que, mais e mais, tomam decisões que ignoram os nossos valores mais profundos, propondo muitas vezes leis contrárias à nossa Moral, fruto da Religião Católica Apostólica Romana professada pela larga maioria do Povo Português?
    Vislumbramos já os nossos "amigos", radicalmente moderados, a preparar uma desposta inteligente, citando as Escrituras – e ainda bem que as consideram adaptadas à realidade apesar dos seus 2000 anos: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Mas talvez se esqueçam que esta afirmação proferida pelo Rei dos Reis, que sempre foi interpretada em conjunto com estoutra que estabelece que «se deve obedecer mais a Deus que aos homens» . O que resulta na afirmação do princípio: onde a lei do Estado contradiz a lei de Deus há que recusar-lhe obediência.
    A coerência com os princípios muitas vezes é dura e provoca o ostracismo, mas a sua beleza forja a História e transforma o homem, ordinariamente imerso nas banalidades e preocupações da existência quotidiana, em Homem, artífice da História. E não há nada que o Homem, fiel à graça de Deus, não possa alcançar, e são os grandes movimentos da História que no-lo demonstram. Foi a fidelidade aos princípios que actuou na Restauração de 1640. O Rei D. João IV, como preito de louvor e vassalagem, coroou Nossa Senhora como Rainha de Portugal, num acto carregado de simbolismo, que até hoje marca a vida dos Portugueses.
    Não é por interesse, oportunismo ou indisfarçável desejo de honrarias que sempre lembramos o grande mal dos nossos tempos: o igualitarismo. Este erro, fruto do processo histórico de decadência do Ocidente, torna os homens incoerentes, relativistas e demagogos. E, com dor o dizemos, são os que mais responsabilidades têm, para com o passado, o presente e o futuro, os que mais imersos estão na mitologia oriunda da Revolução Francesa.
    Repetimos, e fá-lo-emos até à exaustão: as desigualdades, desde que sejam harmónicas e proporcionais são um bem. Os direitos que resultam da natural igualdade dos seres humanos, o direito à vida, à honra, a constituir família, ao trabalho, ao salário justo, à prática da verdadeira religião, são iguais para todos. Tudo o que atente contra esses direitos é contrário à Orden estabelecida pela Providência. Quando falamos das desigualdades não falamos só da Nobreza – é dela que parecem ter espantoso receio os radicalmente moderados – falamos de todas as desigualdades provenientes dos acidentes da vida, tais quais, virtude, talento, beleza, força, tradição e também a Família.
    Não advogamos o privilégio do nascimento em exclusivo para os herdeiros de tronos: seria incoerência manifesta. Direito que defendemos do mais fundo das nossas almas, também é válido para muitas outras esferas da sociedade. Contudo este direito implica deveres enormes e muito sérios, que a sociedade tem legitimidade de questionar, em caso de degeneração, escândalo ou infidelidade a princípios sagrados.
    Em 1 de Dezembro de 1640 um punhado de Portugueses, grande parte deles pertencentes à Nobreza, imbuídos de princípios autênticos, restaurou a nossa Coroa e a nossa Independência. Foram coerentes e servem de modelo para os nossos dias. A coerência no Ser talvez seja já um grande passo para a transformação dos acontecimentos. Mas isto implica renúncias,
    dedicações, espírito de sacrifício e, muitas vezes, incompreensões por parte daqueles de quem menos esperávamos.
    Não importa. O cumprimento do dever e a consciência do serviço prestado são consolações superiores.
    Os Arautos d’El Rei comemoram esta data com alegria e convictos de que o exemplo dos heróis da Restauração ainda continua a dar os seus frutos neste início de terceiro milénio. Celebramos hoje sempre atentos e prontos a lutar pelos princípios perenes da Civilização Cristã, da qual a Monarquia é uma das mais belas expressões no campo temporal.
    Pedimos a Nossa Senhora da Conceição, coroada pelo primeiro rei da dinastia de Bragança, que derrame as suas bênçãos sobre o nosso País, protegendo e favorecendo todas as iniciativas que forem empreendidas para a conservação da nossa independência, da nossa Fé e dos nossos valores.

    Coimbra, 1 de Dezembro de 2003

    El original, que se puede encontrar aquí, está en Os Arautos d’El Rei.

  15. #15
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Muito brigado meu irmao


    Aquí os dejo un par de textos que puse como referente de la idea mellista de " Monarquía Dual " como Alianza Peninsular, que no es muy distinta de la de Sardinha. Textos que vienen referidos, asimismo, en Nostalgia de Vázquez de Mella del Padre Lira; como siempre, en Ediciones Nueva Hispanidad, www.nuevahispanidad.com



    Saavedra Fajardo( Siglo XVII ):


    " No deben desdeñarse los portugueses de que se junte aquella Corona con la de Castilla, pues de ella salió como Condado y vuelve a ella como Reino; y no a incorporarse y mezclarse con ella, sino a florecer a su lado, sin que se pueda decir que tiene rey extranjero, sino propio, pues no por conquista, sino por sucesión...Poseía el Reino y lo gobernaba con sus mismas leyes, estilos y lenguajes, no como castellanos, sino como portugueses. Y aunque tenía su residencia en Madrid, resplandecía su majestad en Lisboa. No se veían en los escudos y sellos de Portugal ni en sus flotas y armadas el León y el Castillo, sino las Quinas...No se daban sus premios ni dignidades a extranjeros, sino solamente a los naturales, y éstos gozaban también de los de Castilla y toda la Monarquía, favorecidos con la grandeza, con las encomiendas y puestos mayores de ellas, estando en sus manos las armas de mar y tierra y el gobierno de las provincias más principales. El comercio era, como en todas partes, común; también la Religión y el nombre general de españoles...."



    Oliveira Martins ( Siglo XIX ):


    " Quien pise Portugal y España observará ciertamente, o no tiene ojos, una afinidad innegable de aspecto y de carácter, un parentesco evidente entre los pueblos de los dos lados del Miño, del Guadiana, de la Raya Seca del Este. Si esos hombres no hablasen, nadie distinguiría las dos naciones, y, por otra parte, ¿ confunde ya alguien un algarvés o un alentejano puro con un puro minense ( minhoto ) ? La Historia común confunde, no separa; después de ver que, a pesar de transcurridos siete siglos, no hay diferencias marcadas, la observación de los hombres llévanos a creer que, en efecto, en Portugal faltó una unidad de raza, sobrando por el contrario, una voluntad enérgica o una capacidad notable en sus príncipes...Con un trozo de Galicia, otro de León, otro de la España meridional sarracena, esos príncipes compusieron para sí un estado.


    Verdad que nuestra independencia restauróse en 1640; pero, ¿ cómo ? ¿ Se atreverá alguien a decir que fue una resurrección ? ¿ No será la Historia de la Restauración la nueva Historia de un país que, destruida la obra del Imperio Ultramarino, surge en el siglo XVII, como el nuestro aparece Bélgica para las necesidades del equilibrio europeo ? ¿ No vivimos desde el 1641, bajo el protectorado de Inglaterra ? ¿ No hemos llegado a ser, positivamente, una factoría británica ?


    En sus lenguas, en sus tradiciones, en su carácter, el celta de Irlanda encuentra siempre un punto de apoyo vivo y positivo. ¿ Queréis una prueba de la diferencia ? Los puntos de apoyo que nosotros buscamos han muerto o son negativos: Muerto el Imperio Marítimo y Colonial, la India y toda la Historia que terminó con As Lusiadas en 1880; negativo el odio a Castilla, que ni nos oprime ni nos odia. "

  16. #16
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    Re: Aljubarrota - otros ángulos

    Libros antiguos y de colección en IberLibro
    PORTUGAL E O BRASIL : ATRIBULAÇÕES DE DUAS IDENTIDADES
    LUIS FILIPE CASTRO MENDES –

    Como foi que temperaste,
    Portugal, meu avôzinho,
    Esse gosto misturado
    De saudade e de carinho?


    MANUEL BANDEIRA

    Numa terra radiosa vive um povo
    triste. Legaram-lhe essa melancolia
    os descobridores que a revelaram ao
    mundo e a povoaram.


    PAULO PRADO

    I DA INFELICIDADE DE SER IBÉRICO…

    Um preconceito histórico, persistente no nosso universo cultural desde o Século das Luzes, enfatiza o atraso e a barbárie dos desgraçados povos ibéricos, afastados pelo obscurantismo político e religioso das luzes da civilização, um degrau apenas acima dos mouros e dos cafres, culpados de não serem protestantes, norte-europeus e, consequentemente, trabalhadores, individualistas e empreendedores. Durante os séculos XVIII e XIX, Portugal e a Espanha são vistos pelo mundo civilizado (isto é, o mundo organizado conforme os interesses das potências dominantes) como qualquer coisa de intermédio entre a civilização e o exotismo, não tão estranhos que coubessem nos estudos dos orientalistas, mas suficientemente bizarros para despertarem a ironia superior dos viajantes e o fascínio erótico dos poetas e novelistas.

    Ironia da História: esta unidade de destino entre portugueses e espanhóis decorre mais da rejeição de que os dois países foram alvo por parte dos novos centros de poder mundial emergentes no limiar da modernidade, isto é, no fim da idade barroca, do que de uma real identidade de projectos históricos. No século XVI, portugueses e espanhóis, ciosos das suas soberanias e rivais na expansão marítima, sentiam-se, não obstante, partilhar uma cultura comum. Mas esta identidade cultural ibérica, bem visível em Gil Vicente ou Camões, quebrou-se no século XVII, com a tentativa filipina de unificação política sob hegemonia castelhana, que veio determinar um persistente divórcio político e cultural entre os dois países, de que só hoje começamos, felizmente, a sair.

    Eduardo Lourenço, no seu ensaio Nós e a Europa ou as Duas Razões, contrapõe à razão cartesiana, que funda a nossa modernidade, uma outra razão, ibérica, contra-reformista, barroca, de que o expoente seria Gracián, o da Agudeza e Arte de Engenho. Nessa razão barroca participaram espanhóis e portugueses, mas também o que, a partir dos espanhóis e dos portugueses, se formava do outro lado do Atlântico: não são Sor Juana Inés de la Cruz e o Padre António Vieira expressões maiores do barroco universal, como o virá a ser, num genial anacronismo, a escultura do Aleijadinho? Não foi a Ratio Studiorum dos jesuítas uma matriz fundadora da cultura no Brasil?

    Mas a verdade é que esta rejeição da cultura ibérica foi assumida por um grande número de historiadores brasileiros como a chave que explicaria todos os atrasos, injustiças e opressões sofridos pelo Brasil. A colonização portuguesa seria o pecado original desta terra, o que lhe vedara o acesso ao paraíso ou os caminhos da modernidade.

    Esta ideia encontra-se formulada exemplarmente na obra clássica de Sérgio Buarque de Holanda Raízes do Brasil. Todos os obstáculos ao desenvolvimento do Brasil derivariam dos traços de carácter herdados do colonizador português, reconstruídos como um tipo-ideal, à maneira de Max Weber, e contrapostos (sempre seguindo a lição de Weber) àqueles que fundamentam o espírito moderno, essencialmente derivados da ética do protestantismo. Daí o grande confronto, obsessivo na cultura brasileira, entre o Brasil e os Estados Unidos, encarados estes, mesmo quando demonizados, como o supremo paradigma. Bandeirantes e Pioneiros de Vianna Moog é a triste elegia a um Brasil que poderia ter sido, um Brasil que se poderia vir a identificar com os Estados Unidos.

    Conhecemos a grande obra de interpretação do Brasil antagónica desta visão, que foi a de Gilberto Freyre. Para o autor de Casa Grande e Senzala foi da colonização portuguesa e da escravidão africana que provieram toda a originalidade e a inovação da civilização brasileira, através do processo de miscigenação. Freyre não idealiza o processo colonizador, mas escreve de uma história olhada sem ressentimentos, com o amor fati nietzscheano e a permanente gula dos sentidos que o tornam o mais moderno de todos os seus contemporâneos.

    Com a notável excepção de Vamireh Chacon, as correntes dominantes do pensamento social brasileiro de tendências mais progressistas tenderam a identificar as teses de Gilberto Freyre com o conservadorismo e a nostalgia de uma sociedade patriarcal e pré-moderna, colocando assim as ideias do mestre de Apicucos como mais um obstáculo ao progresso e à emancipação dos brasileiros. Uma rejeição global que José Guilherme Merquior, grande desmistificador, qualificou um dia de “suprema burrice”.

    Sem querer intervir neste debate (porque penso, como Alfredo Bosi, que é uma questão ociosa escolher agora quem teriam sido os melhores colonizadores), julgo necessário integorrarmo-nos em que medida as duas correntes de interpretação aqui demarcadas partilhariam um terreno comum, uma visão que da imagem construída do passado histórico deriva para um olhar intemporal sobre o Outro, o português, e em que medida nós, os portugueses, nos confrontamos ainda e sempre com essa imagem intemporal que de nós foram tecendo os brasileiros no processo de construção da sua própria identidade (a piada de português é apenas a manifestação mais superficial e inocente dessa imagem estereotipada).

    II …À DESGRAÇA DE SER PORTUGUÊS

    O facto é que Portugal hoje aparece no Brasil, de forma inédita, e para surpresa e desconcerto de alguns brasileiros, como um país exportador de investimentos produtivos, alguns em sectores de elevada tecnologia, e não mais como um mero exportador de mão-de-obra pouco qualificada para pequenas empresas de comércio e serviços. Esta mudança da base material da presença portuguesa no Brasil, embora custe muito a ser digerida por alguns (para o historiador Luís Felipe de Alencastro, por exemplo, o investimento português seria apenas um braço subordinado do capital espanhol, esse sim o verdadeiro actor da História), não deixou de trazer mudanças sensíveis à percepção de Portugal do outro lado do Atlântico. Acresce que a imagem de Portugal como persistência de uma sociedade de Antigo Regime encravada na modernidade europeia, tão cultivada também pela intelectualidade brasileira, mesmo quando solidariamente a denunciava, dificilmente se sustenta face à realidade actual de um país democrático, moderno e integrado na União Europeia.

    Convém não esquecer que a imagem de Portugal para os brasileiros foi durante muito tempo a de um país atrasado, arcaico, imune à mudança, ancorado no tempo como uma nau de pedra silenciosa. Para os conservadores autêntico guardião das tradições de que nasceu o Brasil, para os progressistas resumo de tudo o que o Brasil deveria destruir dentro de si para ser verdadeiramente moderno e autenticamente justo, Portugal só era tratado pelos brasileiros como um antepassado.

    A recente comemoração dos 500 anos do “descobrimento” ou “achamento” ou “encontro” dividiu o Brasil. De um lado os que aceitam a herança portuguesa como uma matriz fundadora da identidade brasileira; do outro aqueles que, não podendo negar essa realidade, não se conformam com ela, porque pensam sinceramente que todos os atrasos e as injustiças do Brasil derivaram em linha directa da colonização portuguesa.

    Para dar um exemplo, entre os mais notáveis, um livro como Os Donos do Poder de Raymundo Faoro, na sua visão fixista da sociedade brasileira (tudo se joga na sociedade estamental herdada da colonização portuguesa, que se mantém metafisicamente incorrupta através dos séculos), vem tornar mais compreensível a dificuldade que os brasileiros sentem em reconhecer no antigo país colonizador mudanças que muitas vezes não conseguem ver no seu próprio país. É que o Brasil nunca será “um imenso Portugal”, como cantava Chico Buarque, pela simples razão de que há quase 200 anos que vivemos separados.

    Na verdade, para um português é mais claro e mais saudável este sentimento de separação do Brasil do que para um brasileiro. Para nós, o colonialismo português jogou-se no nosso tempo nos dramas de África e há muito já que reconhecemos o Brasil como uma outra nação. Não assim no Brasil, que, de um certo modo, introjectou Portugal, incorporou-o a si mesmo (antropofagicamente, como diriam os modernistas de 1922), olhando-o quase como um capítulo do seu passado, como uma referência incontornável (para o bem e para o mal) da afirmação da sua própria identidade, mas que, por isso mesmo, se tornou estranhamente invisível aos brasileiros enquanto realidade existente e país actual, como diagnosticava Eduardo Lourenço na sua lúcida Nau de Ícaro. Como se para os brasileiros o único sentido de ser português fosse vir a tornar-se brasileiro…

    Acresce que à escala mundial vivemos hoje tempos de uma curiosa ofensiva ideológica anti-europeia, fomentada por algum pensamento “politicamente correcto”. Através do conceito de “pós-colonial”, concebe-se por vezes uma estranha frente entre os Estados Unidos, o antigamente chamado Terceiro Mundo e os países industrializados exteriores à Europa (Japão, Canadá, Austrália), opostos em bloco aos europeus por esta nova construção ideológica, que foi denunciada, entre outros, pelo marxista Perry Anderson.

    Toda a ideia (já veiculada em 1992, quando do quinto centenário da viagem de Cristóvão Colombo) de que “comemorar os 500 anos é comemorar a violência e a rapina do colonialismo” vem hoje dessa matriz ideológica “pós-colonial”, bem mais do que do velho marxismo, que sempre soube que a violência é parteira da História e nunca simpatizou excessivamente com etnias e sociedades tradicionais. E vem também muitas vezes (e particularmente no caso que nos ocupa) daqueles que, na esteira de certas leituras de Max Weber, atribuem todas as virtudes civilizatórias aos Estados Unidos e aos colonizadores brancos, anglo-saxões e protestantes e todos os estigmas aos colonizadores ibéricos, por acreditarem ingenuamente nas histórias piedosas que os norte-americanos contam sobre si próprios.

    Assim, se por um lado os preconceitos anti-portugueses estão conhecendo hoje no Brasil um evidente recuo, registando-se da parte dos intelectuais e dos jovens brasileiros uma nova curiosidade pela nossa cultura, hoje reconhecida nas manifestações da sua novidade e não mais como expoente de manifestações arcaizantes, não deixou algum velho anti-lusitanismo de ressurgir por ocasião das comemorações dos 500 anos, como por exemplo quando o insigne brasilianista inglês Leslie Bethell veio escrever que foi a meu ver um grande erro do Brasil permitir que os portugueses praticamente sequestrassem a celebração do 500 aniversário do Brasil com a ênfase dada ao descobrimento pelos portugueses. A virtude anglo-saxónica vela sobre o Brasil…

    Contudo, se atentarmos na mais recente geração brasileira de estudos históricos, sociológicos e até estéticos e literários, não poderemos deixar de ficar impressionados por uma nova ideia de Portugal por eles trazida, bem mais objectiva, crítica e isenta das grandes visões de “tipo-ideal” que os famosos “intérpretes do Brasil” quiseram introduzir afinal como “ideologias do Brasil”. A investigação fez-se menos sequiosa de grandes sínteses de interpretação do destino nacional e mais atenta à rigorosa impiedade dos factos.

    Face a este quadro, parece-nos evidente que uma política cultural externa portuguesa para o Brasil deveria ousar trazer a este país as manifestações mais vivas e actuais da nossa cultura e não continuar a responder à sede de tradições conhecidas e requentadas, que apenas confirmam no brasileiro a imagem de um Portugal instalado para sempre nas brumas do passado. Este é o desafio da nossa geração. Mais do que continuar a mostrar como soubémos bem navegar no século XVI, há que demonstrar como sabemos hoje dominar e praticar as linguagens e as tecnologias do nosso tempo.

    III – TEMOS TODOS A MESMA IDADE

    Mas afinal a História foi sempre feita de paixão e de violência, de sonho e de furor. Quem se lembra de negar o que é, porque a sua origem não é a que desejaria, é como a bela alma hegeliana, incapaz de se inserir no curso da História: um anjo torto.

    Porque envergonhar-se da própria origem é a atitude típica do homem do ressentimento, manifestação daquilo a que Freud chama romance familiar, o desejo frustrado de ter pais mais ricos e poderosos. A América foi um sonho dos europeus. Os portugueses sonharam tanto com o Brasil como todos os outros europeus sonharam com a América. Por isso do que deixámos podemos orgulhar-nos, sem ilusões idílicas nem remorsos tardios (ter remorsos, dizia Espinoza, é pecar segunda vez), porque a violência da História foi para nós, como para todos, o quinhão da mesma humanidade.

    E Portugal são os portugueses e as portuguesas de hoje, não esse país obscuro e de antanho, convidado de pedra no tempo e na memória, que tantas vezes os brasileiros identificam com Portugal, projectando em nós a imagem do seu próprio passado. Desse passado vimos, mas também contra esse passado nos fizémos no que somos hoje, para o bem e para o mal. Desmentindo o belo poema de Manuel Bandeira, os portugueses não podem ser os avózinhos dos brasileiros, pelas simples razão de que nós, as gerações de hoje, temos afinal a mesma idade.

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