Blog dos leitores (Putin e Katyn)
Texto e tradução enviados pelo leitor António Campos:
"Se há virtude que todos unanimemente reconhecem em Vladimir Putin, será a sua extrema habilidade política. E tal ficou mais do que provado no seu recente discurso em Katyn, que obteve a proeza de receber elogios generalizados e incondicionais de um lago espectro da classe política internacional, bem como de muitos comentadores que seguem a realidade daquela parte do mundo. No entanto, uma análise mais profunda das suas palavras na cerimónia revela não mais do que uma simples manobra de charme, com poucos ou nenhuns resultados conducentes à resolução desta disputa histórica. Boris Sokolov, num ensaio publicado recentemente no site Grani.ru, tem uma visão crítica sobre o verdadeiro alcance da postura do primeiro-ministro russo.
Segue abaixo a tradução do comentador. Peço antecipadamente desculpas por eventuais incorrecções da tradução do original em russo.
"Atolados em Mentiras
Vladimir Putin usou uma cerimónia fúnebre na floresta de Katyn para pressionar a Polónia a parar de discutir a história. Do seu ponto de vista, "uma via conjunta para compreender a memória nacional e as feridas históricas poderá ajudar-nos a evitar o impasse da incompreensão e do eterno ajuste de contas, bem como da divisão primitiva de povos entre justos e culpados, tal como é a intenção de alguns políticos menos escrupulosos...". Além disso, referiu que "no nosso país temos uma clara avaliação política, jurídica e moral das atrocidades do regime totalitário, que não está aberta a revisão". O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, afirmou em resposta que a verdade sobre Katyn não deve servir como pretexto para dividir os povos russo e polaco.
Estas palavras soam inteiramente correctas. Pelos padrões russos, trataram-se de declarações sensatas de um líder nacional.
À vista dos dois chefes de governo ajoelhados em memória das vítimas inocentes, os polacos ficaram aparentemente bem impressionados. Todavia, surpreendentemente, o primeiro-ministro russo falou muito sobre a sua simpatia para com as vítimas, mas quase nada sobre a responsabilidade dos carrascos. E não se coibiu também de atirar mais umas achas para a fogueira.
Por exemplo, Vladimir Vladimirovich afirmou: "Durante décadas, mentiras cínicas tentaram ocultar a verdade sobre o massacre de Katyn; mas as mesmas mentiras procuravam atribuir a responsabilidade ao povo russo." Esta formulação tem implícita a exigência polaca de que a Rússia assuma a sua responsabilidade moral pelos massacres e compense as vítimas. Em princípio, as palavras de Putin sobre as tentativas ilícitas de culpar o povo russo por Katyn poderão ser vistas no contexto da visita de Tusk e Kaczynski no dia 10 de Abril ao local onde estão previstas as cerimónias, ainda que as reivindicações polacas abranjam não o povo russo, mas sim o estado russo, que se autoproclamou sucessor directo da URSS.
Por outro lado, Putin afirmou hipocritamente que a única coisa que restringe o acesso às informações sobre a tragédia de Katyn são questões humanitárias, ou seja, o desejo de não prejudicar os familiares dos envolvidos nesse acontecimento trágico. Somos levados a imaginar cenas em que os familiares das vítimas perseguem os familiares dos carrascos com facas e pistolas, numa tentativa de ajustar contas.
De facto, estas "considerações humanitárias" destinam-se apenas a justificar as reticências do gabinete do procurador militar russo em desclassificar os documentos de acusação do caso de Katyn, onde se apontam todos os supostos responsáveis. E a preocupação aqui não é com o público polaco, mas com o russo. Todos os documentos importantes contendo, entre outras coisas, os nomes dos envolvidos no crime de Katyn, foram entregues mesmo antes da investigação oficial aos historiadores polacos, já se encontrando disponíveis nos arquivos do Instituto da Memória Nacional. Porém, se os documentos da investigação russos, incluindo a lista dos responsáveis, fossem desclassificados, tal não impediria a sua publicação na Rússia, ficando o país finalmente a saber a verdade sobre os seus heróis da polícia secreta. E tal é algo que a soberania russa não pretende que aconteça.
Acima de tudo, no seu discurso sobre Katyn, Putin não conseguiu resistir a criticar a conduta sobre os prisioneiros de guerra do lado polaco em 1920: "A minha opinião é a de que Estaline sentiu a responsabilidade pessoal pela tragédia do conflito militar polaco-soviético de 1920 e foi motivado, nesta matança, por um desejo de vingança...tenho vergonha de admitir a minha ignorância do facto de Estaline ter supervisionado directamente as operações militares durante a guerra polaco-soviética de 1920. Como sabemos, o Exército Vermelho foi derrotado. Muitos dos seus soldados foram feitos prisioneiros. De acordo com dados recentes, morreram em cativeiro devido a fome e a doença 32 mil soldados cativos dos polacos.”
Sou levado a perguntar como é que o nosso primeiro-ministro citou o número de 32 mil. Os historiadores polacos afirmam que cerca de 18 a 20 mil militares do Exército Vermelho morreram em cativeiro, o que é comprovado por documentos polacos e pelo número aproximado de sepulturas. Contudo, os nossos historiadores patrióticos referem geralmente um número de 60 mil mortes de soldados capturados. Aquele será então provavelmente um número apenas conveniente, pois excede o número de polacos assassinados pelo NKVD na Primavera de 1940 (22 mil).
De facto, Estaline foi um dos mais importantes actores da guerra polaco-soviética de 1920. No entanto, é improvável que tenha tido alguma ideia sobre o número de mortes do Exército vermelho em cativeiro (a propósito, o seu exército não era menos propenso a mortes por febre tifóide ou outras epidemias). Como as experiências das guerras entre a Finlândia e a URSS e da Segunda Guerra Mundial comprovam, Estaline considerava os prisioneiros do Exército Vermelho cobardes e traidores, tendo-os recambiado para o GULAG após a libertação. Vingar 1920 não lhe terá pois seguramente passado pela cabeça.
Na senda de alguns historiadores russos, Putin afirmou: "A questão, claro, é saber porque é que alguns foram exilados para a Sibéria, enquanto que outros foram executadas. Não há nenhuma explicação racional para isso, nem nos documentos. A razão para estes crimes não é clara e não existem indícios que nos permitam chegar a uma conclusão." De facto, foram enviados para a Sibéria e para a Ásia Central familiares dos executados em Katyn, bem como polacos que não eram oficiais nem vistos como "exploradores", mas que eram considerados desleais. Entre os oficiais houve excepções, tais como o general Anders, informadores do NKVD e, nas palavras de Beria, indivíduos com "pensamento politicamente correcto", tais como Sigmund Berling, que estava pronto a organizar um novo exército polaco controlado pelos soviéticos.
A razão pela qual os oficiais polacos foram chacinados em Abril e Maio de 1940 foi o objectivo de Estaline de organizar um exército polaco totalmente controlado, e, por inerência, um estado polaco fantoche. Este previa que, o mais tardar em Maio, Hitler iniciasse uma ofensiva generalizada contra a França, o que lhe permitiria atacar a sua retaguarda quando a Wehrmacht estivesse atolada na linha Maginot. De seguida, a França, a Inglaterra e o governo polaco no exílio tornar-se-iam aliados soviéticos e os oficiais polacos prisioneiros seriam libertados. Não sendo estes, na sua maioria, muito dados ao comunismo, o novo exército polaco sob o seu comando não seria facilmente controlado por Moscovo. Por isso, Estaline decidiu assassiná-los. No entanto, esta explicação não poderia sair da boca do primeiro-ministro russo.
Putin não se conteve de repetir a mentira, propagada pela imprensa russa, de que em Katyn estão também enterrados, juntamente com os oficiais polacos e com as outras vítimas das repressões do NKVD, cidadãos soviéticos mortos pelos nazis. No entanto, é sabido que os alemães não mataram prisioneiros soviéticos em Katyn, tendo mesmo, ignorando a existência das vítimas aí enterradas, montado nas imediações um quartel de comunicações. Putin serviu-se desta falsidade para adiantar que a comissão Burdenko terá apenas cometido um erro honesto, em vez de ter falsificado deliberadamente os factos ao afirmar que os polacos foram fuzilados pelos alemães. Sendo estes também carrascos, seria fácil ser induzido em erro.
Por outro lado, Putin tentou como que diluir o assassínio de quase 22 mil polacos na primavera de 1940, misturando-o com os crimes estalinistas contra cidadãos soviéticos, quando afirmou que "a repressão esmaga pessoas, independentemente da nacionalidade, convicção ou religião. A lógica era espalhar o medo, despertando os instintos mais primários, incitar uns contra outros e levá-los a obedecer cegamente e sem pensar." Assim, de forma não muito elegante, o primeiro-ministro russo tentou evitar acusações de genocídio em Katyn.
No entanto, o camarada Estaline tinha bem presente a questão da nacionalidade. É tristemente notória a decisão do Politburo de 5 de Março de 1940 sobre a execução de oficiais polacos e representantes dos "exploradores de classe", bem como de exploradores "bielorrussos e ucranianos" a "reprimir ao abrigo de outros regulamentos". Mas pouco antes do Katyn, em 1937-1938, o NKVD conduziu uma operação contra "contingentes nacionais" no âmbito das quais foram executados ou enviados para campos de concentração centenas de milhares de polacos, alemães, estónios, letões, lituanos e outros grupos étnicos "duvidosos", cujo único crime era pertencerem a estados não incorporados na URSS. De entre essas operações, o grupo dos "polacos" foi o mais sangrentamente afectado.
Assim, a cerimónia comemorativa não trouxe nenhum dos avanços históricos sobre Katyn que eram aguardados tanto pelos políticos como pelo público polaco. Putin não forneceu nenhum dos documentos desclassificados sobre a investigação, nem anunciou a reabertura do inquérito, mau grado as solicitações do lado polaco. Além disso, na véspera da cerimónia, foi publicada a resposta do gabinete do procurador militar ao pedido de Estrasburgo, na qual aquele se recusou a entregar ao tribunal os autos do inquérito. Em nenhum dos textos oficiais russos é possível ler as expressões "crimes" ou "assassínios", optando o Ministério Público por usar termos como o "caso" ou os "acontecimentos de Katyn".
O melhor que as autoridades russas se dispuseram a fazer foi autorizar a exibição, no canal "Kultura", do filme "Katyn" de Andrzej Wajda. Foi uma boa iniciativa. Contudo, se o filme tivesse sido exibido num dos canais principais, muito mais pessoas teriam ficado a saber a verdade.
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