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Tema: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

  1. #1
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    As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I).

    O Professor Roberto de Mattei, professor catedrático de História Moderna na Universidade de Cassino, publicou uma luzidia «Apologia das Cruzadas» cujas partes essenciais reproduziremos nos próximos posts.

    O Prof. de Mattei também leciona História do Cristianismo e da Igreja na Universidade Européia de Roma, e é responsável da área das ciências jurídicas, sócio-econômicas, humanísticas e dos bens culturais do Consiglio Nazionale della Ricerca, da Itália.
    __________________



    O historiador de arte Erwin Panofsky estudou a relação entre as janelas góticas e a filosofia escolástica, e enfatizou quanto o brilho dos vitrais das catedrais medievais corresponde à transparência de trabalhos como a «Summa Theologica» de S. Tomás de Aquino (Erwin Panofsky, «A arquitetura gótica e a filosofia escolástica»).

    Da epopéia das Cruzadas emana ‒ poderíamos acrescentar ‒ o mesmo brilho, a mesma beleza diáfana, o impulso para cima, a mesma força criativa da obra de Santo Tomás de Aquino e de Dante.

    As próprias Cruzadas são parte do patrimônio de valores derivados do Evangelho e desenvolvidos em sintonia com ele.



    «As obras de arte que nasceram na Europa nos séculos passados são incompreensíveis sem levar em conta a alma religiosa que as inspirou», disse ainda Bento XVI, na audiência geral de 18 de novembro de 2009.



    O mesmo poderia ser dito das Cruzadas, que tiveram os campos de batalha da Palestina, mas foram inspiradas pela mesma escala de valores que durante esses anos guiou os arquitetos das catedrais de pedra.

    Nem as Cruzadas nem as catedrais podem ser compreendidas por aqueles que ignoram o pensamento e, acima de tudo, a fé viva que inspirou seus criadores.

    Na Catedral, os cristãos se reuniam em torno do padre que celebrava a missa em um altar olhando para o Oriente e renovava, sem derramamento de sangue, o máximo mistério do cristianismo: a Encarnação, Paixão e morte de Jesus Cristo.

    Nas Cruzadas, as mesmas pessoas pegavam em armas para libertar a Cidade Santa de Jerusalém que caíra nas mãos dos maometanos.

    O túmulo vazio do Santo Sepulcro, junto com o Santo Sudário, são testemunhos vivos da Ressurreição e as mais preciosas relíquias da Cristandade.

    (Fonte: Prof. Roberto de Mattei, «Il Foglio»,08/06/2010, apud Corrispondenza Romana, 08/06/2010).
    Hyeronimus y César Ignacio dieron el Víctor.

  2. #2
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    As Cruzadas, decorrência necessária dos Evangelhos ‒ Apologia da Cruzada II.



    A primeira Cruzada foi pregada em decorrência da meditação das palavras de Cristo: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me» (Mt 16, 21-27).

    Aquela mesma Cruz, em torno da qual se reuniam as pessoas nas catedrais, foi estampada nas vestes dos cruzados e exprimia o ato pelo qual o cristão se mostrava disposto a oferecer sua vida pelo bem sobrenatural do próximo brandindo suas armas.


    O espírito das Cruzadas era, e continua a ser, o espírito do cristianismo: o amor ao mistério incompreensível da Cruz.


    O professor Jonathan Riley-Smith, decano da renovação dos estudos sobre as Cruzadas, referiu-se àqueles que responderam ao apelo da primeira Cruzada, dizendo que estavam “inflamados pelo ardor da caridade” e pelo amor de Deus. Ele assim traça a motivação profunda daquela iniciativa.



    Oferecer a própria vida é certamente a melhor forma de amor, e o ato mais perfeito de caridade, porque nos torna perfeitos imitadores de Jesus segundo aquelas palavras do Evangelho: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus irmãos” (Jo 15, 13).

    Só o amor, resumido no sacrifício de Cristo na Cruz é capaz de derrotar a morte, que é o maior sofrimento físico, e o pecado, que é o supremo mal moral.

    Esse espírito e esse estado de espírito, abundantemente documentado pelas fontes históricas, não brota como um rio lamacento do inconsciente coletivo do Ocidente, mas do livre arbítrio de indivíduos que nos luminosos séculos medievais responderam a um apelo dirigido à sua consciência.

    A resposta a esse apelo pode ser considerada uma “categoria do espírito” que nunca perde validade.

    A idéia de Cruzada não é apenas um evento histórico limitado à Idade Média, mas é uma constante do espírito cristão que na história conhece momentos de eclipse, mas que sob diversas formas está destinada a reflorescer.



    Expurgar a idéia de Cruzada da “plataforma programática” pessoal significa banir a própria idéia do combate cristão.

    O ensinamento de que a vida espiritual é uma luta está especialmente desenvolvido nas cartas de São Paulo. Em muitos lugares delas encontram-se metáforas e imagens tiradas da vida do guerreiro.

    O Apóstolo explica como a vida cristã é um bonum certamen (bom combate) que deve ser batalhado “pelo bom soldado de Jesus Cristo” (II Tm. 2, 3).

    “Revesti-vos da armadura de Deus ‒ diz ele ‒, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares. Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever” (Ef 6, 11ss).

    E ainda: “Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus.” (Efésios 6, 14-17).




    O espírito da Cruzada e do martírio têm uma origem comum na dimensão profunda da guerra espiritual. O martírio, como o sofrimento, pressupõe o combate.

    A própria vida de Jesus Cristo pode ser considerada como uma batalha constante contra o conjunto das forças hostis ao reino de Deus: o pecado, o mundo e o diabo.

    Que a vida do cristão seja uma luta é um dos conceitos que com maior freqüência ressoa no Novo Testamento, onde lemos:
    “Suporta comigo os trabalhos, como bom soldado de Jesus Cristo. Nenhum soldado pode implicar-se em negócios da vida civil, se quer agradar ao que o alistou. Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras.” (II Tm. 2,5).

    O Evangelho, aliás, em seu genuíno sentido original, é a proclamação de uma vitória militar, neste caso a vitória de Cristo sobre o mal e os poderes das trevas.
    Última edición por Pious; 08/07/2018 a las 00:27
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  3. #3
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    A Igreja não pode abandonar as Cruzadas sem se trair ‒ Apologia da Cruzada III.



    Por que a Igreja não pode abandonar o espírito de Cruzada? Simplesmente porque não pode negar sua história e sua doutrina.

    A história das Cruzadas não é um apêndice insignificante na história da Igreja.

    Pelo contrário, está intimamente unida à história do Papado.

    As Cruzadas não estão ligadas a um único Papa, mas a uma sucessão ininterrupta de pontífices, muitos deles santos, principalmente o Beato Urbano II que promulgou a Primeira Cruzada, São Pio V e o Beato Inocêncio XI, que promoveram “Santas Alianças” contra os turcos em Lepanto, Budapeste e Viena nos séculos XVI e XVII.

    Não é desconhecido dos historiadores que, mesmo no século XX, Pio XII estudou a possibilidade de lançar uma “Cruzada” depois da revolta anti-comunista na Hungria em 1956.

    Ao testemunho dos Papas, acrescenta-se o testemunho dos santos, começando com Luís IX, o Rei Cruzado por excelência, com Joana D'Arc, também a sua maneira “cruzada” e padroeira da França, “filha primogênita da Igreja”.

    Opor a estas figuras o nosso São Francisco mostra, senão mala fé, pelo menos um notável desconhecimento da história.

    A fonte mais confiável da viagem de Francisco é o testemunho de seu companheiro, o irmão Iluminado, que nos diz que o santo defendeu o trabalho dos cruzados e propôs a conversão ao Sultão.



    E quem pode esquecer as legiões de franciscanos que se uniram ao longo dos séculos aos cruzados, liderados por São João de Capistrano (1386-1456), pregador da grande Cruzada do século XV que culminou com a libertação de Belgrado?



    Ao lado do nome de São Francisco devemos colocar o de Santa Catarina de Siena, padroeira da Itália e Doutor da Igreja.

    Um recente ensaio de Massimo Viglione mostrou que seu espírito era profundamente “cruzado” (“L'idea di crociata in Santa Caterina da Siena” ‒ “A idéia de Cruzada em Santa Catarina Siena”).

    A ela poderíamos acrescentar outro Doutor da Igreja de sexo feminino, desta vez uma contemporânea: Santa Teresinha de Lisieux que numa página tocante em que se volta para Jesus, diz querer “percorrer a terra, pregar o teu nome, e cravar em solo infiel Tua gloriosa Cruz”, reunindo numa única vocação as de apóstolo, cruzado e mártir.



    “Sinto em mim ‒ escreve ‒ a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de Doutor, de mártir, em suma, eu sinto a necessidade, o desejo de realizar por Vós, Jesus, todas as obras as mais heróicas. Eu sinto em minha alma a coragem de um cruzado, de um zuavo pontifício: eu quereria morrer num campo de batalha para defender a Igreja ....”

    Em 4 de agosto de 1897, no leito de morte, voltando-se para a Superiora, ela murmurou: “Oh, não, eu não teria medo de ir à guerra. Por exemplo, na época das Cruzadas, com quanta alegria eu teria partido para combater os hereges” (“História de uma Alma”, em “Obras Completas”).
    Hyeronimus y César Ignacio dieron el Víctor.

  4. #4
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    Pacifismo hedonista e materialista X espírito de Cruzada ‒ Apologia da Cruzada IV.



    A Igreja nunca professou o pacifismo.

    O combate cristão, que é acima de tudo, uma atitude espiritual, mas que inclui a possibilidade da legítima defesa, a guerra justa e até mesmo “a guerra santa”, pertence a mais pura tradição católica.

    Quem professa o pacifismo e o ecumenismo até o último ponto esquece que há males mais profundos que os físicos e materiais, e confunde as conseqüências desastrosas da guerra no plano físico, com suas causas, que são morais e provêm da violação da ordem. Numa palavra, olvidam que o pecado que só pode ser derrotado pela Cruz.

    O mundo moderno que está imerso no hedonismo e perdeu a fé julga só ser um mal, e um mal absoluto, os danos físicos, esquecendo que o mal e a dor que acompanham inevitavelmente a vida humana com freqüência a elevam.



    O espírito das Cruzadas e de Lepanto nos envia uma mensagem de fortaleza cristã que consiste na disposição de sacrificar os bens da terra, em aras de bens maiores, como a justiça, a verdade e o futuro de nossa civilização.

    Hoje, o inimigo que ameaça a Igreja e o Ocidente é a atitude mental de quem acredita que acabou o tempo de Lepanto e das Cruzadas.

    Esse inimigo contrapõe ao espírito de combate uma visão do mundo segundo a qual nada há de verdadeiro e de absoluto, e que tudo é relativo às épocas, aos lugares e às circunstâncias.

    É este o relativismo que foi denunciado por João Paulo II na Encíclica “Veritatis Splendor” e “Evangelium Vitae” quando fala da “confusão entre o bem e o mal, que torna impossível construir e manter a ordem moral dos indivíduos e das comunidades” (SV 93).

    A batalha contra o relativismo em defesa das raízes cristãs da sociedade para a qual hoje nos convidam João Paulo II e Bento XVI, é uma batalha em defesa de nossa memória histórica.

    Sem memória histórica não há identidade no presente, porque é sobre a memória que se baseia a identidade dos indivíduos e dos povos.

    Mas, as raízes cristãs não pertencem só à memória ou à história: elas estão vivas, porque o Crucifixo que as resume não é somente um símbolo histórico e cultural, mas é uma fonte atual e perene da verdade e da vida, do sofrimento e da luta.

    A Igreja tem inimigos ainda que nós tendamos a esquecê-lo porque perdemos a concepção militante da vida cristã, fundada na Cruz, que sempre caracterizou o cristianismo.


    A perda desse espírito militante é o resultado do hedonismo e do relativismo em que estão imersos, infelizmente, muitos homens de igreja.



    Bento XVI fala freqüentemente de “minorias criativas”, poderíamos acrescentar “militantes”, porque a guerra hoje em curso é moral e cultural. Nela se enfrentam em línea de princípio duas concepções do mundo.

    A história, aliás, é feita pelas minorias, sobre tudo as militantes. Pode-se militar pelo bem ou pelo mal, em um campo ou outro, mas apenas os militantes deixam sua marca nos eventos históricos.

    Na homilia de 5 de junho de 2010, em Nicósia, Bento XVI sublinhou também que “um mundo sem a Cruz seria um mundo sem esperança.”

    O mesmo pode ser dito de um mundo sem espírito de Cruzada: seria um mundo sem esperança.

    Isso significaria a renúncia à luta pela salvação, a renúncia da Cruz e reduzir o mundo a meras ruínas.

    Hyeronimus dio el Víctor.

  5. #5
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    Toda a verdade sobre as Cruzadas. Refutando falsos mitos.



    O Beato Papa Urbano II prega a I Cruzada.


    Muitas pessoas, no Oriente e no Ocidente, consideram as Cruzadas uma mancha negra na História da Civilização Ocidental em geral, e da Igreja Católica em particular.

    Citadas por ambas as partes no conflito entre os Estados Unidos e os terroristas árabes, as Cruzadas voltaram aos noticiários, aos filmes e às séries de televisão.

    Propalam-se velhos mitos e reacendem-se discussões. Um bom exame da História das Cruzadas é, portanto, indispensável.

    O Presidente George W. Bush foi infeliz quando chamou a guerra contra o terrorismo de “Cruzada”, tendo recebido inúmeras críticas por empregar uma palavra que seria tão ferina e ofensiva para com os muçulmanos de todo o mundo.


    No entanto, os próprios árabes também fazem uso desse termo. Osama bin Laden e o Mulá Omar com frequência chamaram os norte-americanos de “cruzados”, e qualificaram os atuais conflitos como uma “Cruzada contra o Islã”.

    De fato, as Cruzadas estão bem presentes na memória do mundo muçulmano.

    O Ocidente, por sua vez, também não esqueceu as Cruzadas. Qualquer um que queira intimidar os católicos não demorará a jogar-lhes no rosto as Cruzadas e a Inquisição.


    As Cruzadas estão bem presentes na memória do mundo muçulmano.

    As Cruzadas são com frequência apresentadas como um exemplo clássico do mal que pode ser feito por uma religião organizada.

    O homem médio, tanto no Cairo como em Nova York, tende a concordar com a ideia de que as Cruzadas foram um ataque não-provocado, cínico e insidioso, promovido por fanáticos contra o pacífico, próspero e sofisticado mundo muçulmano da época.

    Isso não foi sempre assim. Na Idade Média, não havia cristão na Europa que não tivesse certeza de que as Cruzadas eram sumamente boas e justas.

    Os próprios muçulmanos respeitavam os ideais das Cruzadas e a nobreza dos homens que nelas lutavam.

    As coisas começaram a mudar com a Reforma Protestante. Para Martinho Lutero – que já havia rejeitado a autoridade do Papa e a doutrina sobre as indulgências – as Cruzadas não passavam de manobras de um papado sedento de poder.

    Chegava a afirmar que lutar contra os muçulmanos equivalia a lutar contra o próprio Cristo, pois Ele tinha enviado os turcos para punir a Cristandade pelos seus pecados.

    Quando o sultão Suleiman, o Magnífico (1495-1566) começou a invadir a Áustria com os exércitos otomanos, Lutero mudou de opinião sobre a necessidade de lutar, mas manteve-se firme em suas críticas às Cruzadas.




    As Cruzadas foram vituperadas por Lutero e distorcidas pelo Iluminismo.

    Ao longo dos duzentos anos seguintes, as pessoas tendiam a ver as Cruzadas com olhos confessionais: os protestantes lançavam-lhes vitupérios e os católicos, elogios. Quanto a Suleiman e seus sucessores, ambos concordavam: queriam livrar-se dele.

    A atual visão a respeito das Cruzadas nasceu do Iluminismo do século XVIII. Muitos dos então chamados “filósofos”, como Voltaire, pensavam que a Cristandade medieval fora apenas uma vil superstição.

    Para eles as Cruzadas foram uma migração de bárbaros devida ao fanatismo, à ganância e à luxúria.

    A partir desse momento, a versão iluminista sobre as Cruzadas entrou e saiu de moda algumas vezes.

    As Cruzadas receberam boa imprensa e foram consideradas como guerras de nobreza (mas não de religião) durante o Romantismo e até o início do século XX.

    Depois da Segunda Guerra, contudo, a opinião geral voltou-se decisivamente contra as Cruzadas. Na esteira de Hitler, Mussolini e Stalin, os historiadores concluíram que a guerra por motivos ideológicos – seja qual for a ideologia em questão – é abominável.

    Esse sentimento de aversão foi resumido por Steven Runciman nos três volumes do seu livro “A History of the Crusades” (“Uma História das Cruzadas”, 1951-1954).

    Para Runciman, as Cruzadas foram atos de intolerância moralmente repugnantes praticados em nome de Deus. Os homens medievais que brandiam a cruz e marchavam rumo ao Oriente Médio eram ou perversos cínicos, ou avarentos vorazes, ou crédulos ingênuos.

    Esse livro, aliás literariamente bem escrito, tornou-se logo o padrão: com esse único golpe, Runciman conseguiu definir a moderna visão popular sobre as Cruzadas.

    A partir de 1970, as Cruzadas receberam a atenção de centenas de pesquisadores, que as esquadrinharam meticulosamente.

    Como resultado, sabemos hoje muito mais a respeito das guerras santas da Cristandade do que jamais soubemos.

    Contudo, os frutos de décadas de pesquisa histórica só lentamente vão penetrando nas mentes do grande público. Isso se deve em parte aos próprios historiadores profissionais, sempre propensos a publicar estudos que pela sua própria natureza exigem uma linguagem muito técnica, de difícil compreensão para quem não é especialista.



    Verdadeira Cruzada: empresa religiosa militar convocada pelo Papa.


    Contribui também para essa situação a clara relutância das elites contemporâneas em abandonar a visão “runcimaniana” das Cruzadas.

    Sendo assim, os livros populares sobre o tema – livros que as pessoas continuam querendo ler, apesar de tudo – tendem a repetir a conversa de Runciman.

    O mesmo vale para as outras mídias, como o cinema e a televisão. Um exemplo é o documentário As Cruzadas, uma produção da BBC/A&E de 1995, estrelada por Terry Jones.

    Para dar um certo ar de autoridade ao que mostravam, os produtores intercalaram as cenas com entrevistas a importantes historiadores das Cruzadas, que expressavam suas opiniões sobre cada evento retratado.

    O problema é que os historiadores de hoje discordam das ideias de Runciman. Mas os produtores não se importaram com isso: simplesmente editaram as gravações das entrevistas, selecionando fragmentos e sequências que, uma vez montados, davam a impressão de que os historiadores concordavam com Runciman.

    Um deles, o Dr. Jonathan Riley-Smith, veio dizer-me depois, num tom irado: “Eles me mostraram dizendo coisas nas quais eu não acredito!”

    Mas afinal, qual é a verdadeira história das Cruzadas?

    Como o leitor pode imaginar, trata se de uma longa história. Mas existem muitos bons historiadores que ao longo dos últimos vinte anos vêm colocando as coisas no seu devido lugar.

    Por agora, tendo em vista o bombardeio que as Cruzadas vêm recebendo atualmente, o melhor será esclarecer justamente o que as Cruzadas não foram.

    Enumeramos a seguir alguns dos mitos mais comuns, dizendo por que eles são falsos.

    (Autor: Thomas F. Madden. Fonte: Ignatiusinsight.com)
    Última edición por Pious; 09/07/2018 a las 00:41
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  6. #6
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    Refutando mito nº 1: as Cruzadas foram contra pacíficos muçulmanos que nada fizeram contra o Ocidente.


    Altar em Gante, cavaleiros de Cristo, Jan van Eyck

    Não há nada de mais falso.

    Desde os tempos de Maomé, os muçulmanos lançaram-se à conquista do mundo cristão.

    E fizeram um ótimo trabalho: após poucos séculos de incessantes conquistas, os exércitos muçulmanos tomaram todo o norte da África, o Oriente Médio, a Ásia Menor e a maior parte da Península Ibérica.

    Em outras palavras: ao findar o século XI, as forças islâmicas já haviam capturado dois terços do mundo cristão.

    A Palestina, terra de Jesus Cristo; o Egito, berço do monaquismo cristão; a Ásia Menor, onde São Paulo estabeleceu as primeiras comunidades cristãs.

    Não conquistaram a periferia da Cristandade, mas o seu núcleo. E os impérios muçulmanos não pararam por aí: continuaram pressionando pelo leste em direção a Constantinopla, até que finalmente a tomaram e invadiram a própria Europa.

    Se uma agressão não-provocada existiu, foi a muçulmana. Chegou-se a um ponto em que só restava à Cristandade defender-se ou simplesmente sucumbir à conquista muçulmana.

    A Primeira Cruzada foi convocada pelo Papa Urbano II em 1095 para atender aos apelos urgentes do Imperador bizantino de Constantinopla, Aleixo I Comneno (1081-1118).

    Urbano convocou os cavaleiros cristãos para irem em socorro dos seus irmãos do Leste.

    Foi uma obra de misericórdia: livrar os cristãos do Oriente de seus conquistadores muçulmanos.

    Em outras palavras, as Cruzadas foram desde o início uma guerra defensiva.

    Toda a história das Cruzadas do Ocidente foi a história de uma resposta à agressão muçulmana.
    Hyeronimus y César Ignacio dieron el Víctor.

  7. #7
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    Refutando mito nº 2: os Cruzados queriam pilhar. As intenções boas eram máscara


    Os cruzados não queriam reinos no além-mar


    Uma opinião comum entre os historiadores é a de que o aumento da população na Europa originou uma crise, devida ao excesso de “segundos filhos” de nobres, treinados nas artes bélicas de cavalaria, mas sem terras ou feudos onde se estabelecer.

    Por esse motivo, as Cruzadas seriam uma válvula de escape, mandando esses homens belicosos para longe da Europa, onde pudessem obter terras para si à custa dos outros.

    Os pesquisadores atuais, graças à ajuda de bancos de dados computadorizados, desmontaram esse mito.

    Hoje sabemos que os “primeiros filhos” da Europa foram os que responderam ao apelo do Papa em 1095, e também nas Cruzadas seguintes.

    Empreender uma Cruzada era uma operação extremamente cara.

    Os Senhores tiveram que hipotecar suas terras para angariar os fundos necessários.

    Além do mais, não estavam interessados em reinos no além-mar. Como os soldados de hoje, o Cruzado medieval orgulhava se de estar cumprindo o seu dever, mas queria voltar para casa.


    Balduino I rei de Jerusalém, deixou sua rica Flandres por penitência

    Após o espetacular sucesso da Primeira Cruzada, com Jerusalém e grande parte da Palestina em seu poder, quase todos os Cruzados voltaram.

    Somente um pequeno grupo ficou para consolidar e governar os territórios recém-conquistados.

    Foram raras as pilhagens.

    Embora de fato sonhassem com as grandes riquezas das cidades do Oriente, praticamente nenhum Cruzado conseguiu recuperar os seus gastos.

    Mas não foram nem o dinheiro nem as terras o principal motivo que os levaram às Cruzadas: o que queriam era fazer penitência pelos seus pecados e merecer a própria salvação fazendo boas obras em terras distantes.

    Hyeronimus y César Ignacio dieron el Víctor.

  8. #8
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    Refutando mito nº 3: os Cruzados encheram as ruas de Jerusalém de sangue até os tornozelos


    Sitio de Jerusalém

    Esse é o modo preferido de pôr em evidência o caráter malévolo das Cruzadas.

    Num discurso em Georgetown, o ex-presidente Bill Clinton disse que esse foi um dos motivos pelos quais agora os Estados Unidos são alvo de terroristas (embora no citado discurso o Sr. Clinton tenha subido o nível do sangue até a altura dos joelhos, para dar mais ênfase).

    É certamente verdade que muita gente morreu em Jerusalém após a tomada da cidade pelos Cruzados.

    Mas o fato deve ser analisado no seu contexto histórico.

    O costume vigente em todas as civilizações pré-modernas, tanto na Europa quanto na Ásia, era que se uma cidade resistisse à captura e fosse tomada pela força, sua posse caberia às forças vitoriosas.

    Isso incluía não somente os edifícios e os bens, mas também as pessoas.

    Por isso, cada cidade ou fortaleza devia pensar muito bem se podia ou não resistir a um cerco: se não pudesse, o mais prudente era negociar os termos da rendição.

    No caso de Jerusalém, seus defensores resistiram até o último instante.

    Calcularam que as imponentes muralhas da cidade conteriam os Cruzados até chegarem os reforços do Egito.

    Eles erraram: a cidade caiu e consequentemente foi saqueada.


    Muitos morreram, mas outros muitos foram aprisionados ou deixados livres para partir. Para

    elos padrões modernos, isso talvez pareça brutal, mas até mesmo um cavaleiro medieval poderia replicar dizendo que nos bombardeios modernos morrem mais inocentes – homens, mulheres e crianças – do que seria possível passar ao fio da espada em um ou dois dias.

    Convém lembrar também que nas cidades muçulmanas que se renderam aos Cruzados, as pessoas foram deixadas em paz, na posse das suas propriedades, e com permissão para praticar livremente a sua religião.

    Quanto às ruas cheias de sangue, nenhum historiador aceita isso: não passa de um mero recurso literário.

    Jerusalém é uma cidade grande, e a quantidade de pessoas que seria necessário abater para inundar as ruas com dez centímetros de sangue é muito superior à população de toda a região.
    Hyeronimus y César Ignacio dieron el Víctor.

  9. #9
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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    Refutando mitos nº 4 e 5 as Cruzadas foram colonialismo medieval e combateram os judeus


    O Oriente muçulmano: agressivo, poderoso e opulento

    Mito nº 5: as Cruzadas foram colonialismo europeu com ornato religioso


    É importante lembrar que, na Idade Média, o Ocidente não era uma cultura poderosa e dominante, que se lançava sobre uma região primitiva ou atrasada.

    Era o Oriente muçulmano que era poderoso, próspero e opulento.

    A Europa era o terceiro mundo. O Reino Latino de Jerusalém, fundado após a Primeira Cruzada, não era um latifúndio católico incrustado em terras muçulmanas, como depois viriam a ser as terras de plantio em algumas colônias ibéricas ou inglesas na América.

    A presença católica nesse Reino sempre foi mínima: menos de um décimo da população.

    Católicos eram os governantes, os juízes, alguns mercadores italianos e os membros das ordens militares: o resto, a imensa maioria da população, era de muçulmanos.


    O Reino de Jerusalém não era uma colônia agrícola nem industrial, como depois viriam ser as da América ou da Índia: era apenas uma cabeça-de-ponte fortificada.

    A intenção primordial dos Cruzados era defender os Lugares Santos na Palestina – principalmente Jerusalém – e garantir um ambiente seguro para que os peregrinos cristãos pudessem visitá-los.

    Nenhum país europeu funcionava como metrópole, no sentido de manter relações de exploração econômica, nem havia na Europa quem se beneficiasse economicamente com a ocupação.

    São Luís rei embarca para a Cruzada
    Muito pelo contrário: as despesas das Cruzadas e da manutenção do Reino Latino de Jerusalém ceifaram pesadamente os recursos europeus.

    Como posto avançado, o Reino de Jerusalém manteve-se sempre atento ao seu papel militar.

    Enquanto os muçulmanos guerrearam entre si o Reino esteve a salvo, mas quando se uniram, conseguiram conquistar as fortalezas, capturar as cidades e em 1291 expulsar os cristãos definitivamente.



    Mito nº 5: as Cruzadas combateram também os judeus

    Nenhum Papa jamais conclamou uma Cruzada contra os judeus.

    Durante a Primeira Cruzada, um grande bando de arruaceiros – que não fazia parte do exército principal – decidiu atacar as cidades da Renânia para matar e roubar os judeus dali.

    As razões para esse ato foram por um lado a pura cobiça, e por outro a falsa crença de que os judeus, por terem matado Jesus Cristo, eram também alvos legítimos das Cruzadas.

    O Papa Urbano II e os seus sucessores condenaram energicamente esses ataques, e os bispos locais – juntamente com o clero e os leigos – fizeram o que podiam para defender os judeus, embora com pouco sucesso.

    Algo parecido ocorreu na fase inicial da Segunda Cruzada, quando um grupo de renegados matou muitos judeus na Alemanha, até que São Bernardo os apanhou e pôs um fim a isso.

    Essas falhas foram um infeliz subproduto do entusiasmo pelas Cruzadas, mas nunca o seu objetivo.

    Para usar uma analogia moderna: durante a Segunda Guerra Mundial alguns soldados cometeram crimes quando estavam em outros países (pelos quais, aliás, foram presos e punidos), mas isso não justifica dizer que o objetivo da Segunda Guerra foi o de cometer crimes.
    Hyeronimus y César Ignacio dieron el Víctor.

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    Re: As Cruzadas no cerne das raízes cristãs ‒ Apologia da Cruzada (I)

    Libros antiguos y de colección en IberLibro
    Refutando mitos nº 6, 7 e 8: a Cruzada das crianças, pedido de perdão de João Paulo II e “justiça” do ódio muçulmano


    A "Cruzada" das criancas foi desaprovada pelo Papa
    e as criancas tiveram que voltar a casa

    Mito nº 6: as Cruzadas foram algo tão vil e degenerado que houve até uma Cruzada das Crianças.

    A chamada “Cruzada das Crianças” de 1212 nem foi uma Cruzada nem consistiu num exército de crianças.

    Foi uma onda de entusiasmo religioso especialmente prolongada na Alemanha que levou alguns jovens – na maior parte adolescentes – a se autoproclamarem Cruzados e começarem a marchar rumo ao Mediterrâneo.

    Ao longo do caminho foram recebendo grande apoio popular, e a companhia de não poucos bandoleiros, ladrões e mendigos.

    O movimento se desmembrou quando chegou à Itália e terminou quando o mar se recusou a abrir-se para dar-lhes passagem…

    O Papa Inocêncio III não convocou essa tal “Cruzada”, pelo contrário: pediu insistentemente para que os não combatentes ficassem em casa e apoiassem o esforço de guerra apenas com jejuns, orações e esmolas.

    Nesse episódio, depois de louvar o zelo e a disposição desses jovens que tinham marchado até tão longe, mandou-os de volta para casa.

    Imperador de Constantinopla Alexios Komnenos (1106-1142)

    Mito nº 7: o Papa João Paulo II pediu perdão pelas Cruzadas.

    É um mito curioso, porque João Paulo II – que já havia pedido perdão por todas as injustiças que os cristãos cometeram ao longo dos séculos – foi muito criticado justamente por não ter pedido perdão expressamente pelas Cruzadas.

    É verdade que João Paulo II pediu perdão aos gregos pelo saque de Constantinopla em 1204, durante a Quarta Cruzada, mas o Papa da época, Inocêncio III, também já tinha manifestado o seu pesar a respeito desse trágico incidente.

    Da sua parte, Inocêncio III fizera tudo para evitar que isso acontecesse.

    Mito nº 8: Os muçulmanos, que conservam uma viva lembrança das Cruzadas, têm toda a razão em odiar o Ocidente.

    Muçulmanos teceram imagem das Cruzadas
    com histórias mal contadas
    De fato, o mundo muçulmano tem uma lembrança das Cruzadas tão boa quanto a do Ocidente, ou seja, uma lembrança incorreta.

    Isso não deve surpreender-nos, pois os muçulmanos obtêm a sua imagem das Cruzadas através mesmas histórias mal contadas que o Ocidente.

    O mundo muçulmano costuma celebrar as Cruzadas como uma grande vitória sua (aliás, eles venceram mesmo).

    Mas os autores ocidentais, envergonhados do seu passado imperialista, inverteram os papéis e passaram a pintar as Cruzadas como uma agressão e os muçulmanos como pacíficos sofredores agredidos.

    Fazendo isso, simplesmente omitiram os séculos de triunfos muçulmanos, e em seu lugar colocaram apenas o consolo do vitimismo
    Hyeronimus y César Ignacio dieron el Víctor.

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