Qual a causa deste desencadeamento do mal? A nova doutrina.

“Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem.

“É admirável (dictu mirum) com que fervor nos dávamos às boas obras outrora, quando por meio delas nos esforçávamos por alcançar a justificação.

“Cada qual porfiava em vencer os outros em piedade e honestidade.

“E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem”.

Fonte: Weimar, XXVII, 443.
Carroça de Feno, detalhe
(Museu do Prado, Madrid),
Hyeronimus Bosch (1450 — 1516).

O heresiarca leva a sinceridade ao ponto de confessar os efeitos dissolventes da Reforma sobre a própria consciência. Num sermão pregado em 1532:

“Quanto a mim confesso – e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão – que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora.

Quanto mais certos estamos da liberdade que nos conquistou Cristo, tanto mais frios e negligentes somos em pregar, orar, fazer o bem e sofrer o mal”.

Fonte: Weimar, XL, 2 Abt., 61.

À medida que o “novo evangelho” se propagava, avultava e engrossava também a onda da imoralidade.

Com o tempo as expressões do Reformador carregam-se de tintas cada vez mais escuras. Em 1542 escrevia a Amsdorf:

“é tanto o desprezo pela palavra de Deus, tão desmesurado o crescer dos vícios, da avareza, da usura, da licença, dos ódios, das perfídias, das invejas, da soberba, da impiedade e das blasfêmias que não é provável que Deus use ainda de misericórdia com a Alemanha”.

Fonte: De Wette, V, 462.

No ano seguinte, ao mesmo amigo:

Tal era o mundo antes da destruição de Jerusalém, antes da devastação de Roma, antes da perda da Grécia e da Hungria, tal será e é, antes da ruína da Alemanha”.

Fonte: De Wette, V, 600-601.

Um ano antes de sua morte, em 1545, em carta a Gaspar Beier:

O mundo está cheio de Satanás e de homens satânicos”. Fonte: De Wette, V, 721.




















Lutero: o “berço do puro Evangelho”
virou “foco de abominável corrupção”



O Jardim das delicias terrenas.
Hyeronimus Bosch (1450 — 1516).

Wittemberga, berço do puro Evangelho e residência habitual de Lutero, tornara-se outrossim um foco de abominável corrupção. Poucos anos depois de iniciada a “reforma”, já o heresiarca se queixava num sermão:

“Que fazer convosco, Wittembergenses? Já não vos pregarei o reino de Cristo que não quereis receber.

“Sois ladrões, rapaces e cruéis... brutos ingratos. Arrependo-me de vos haver libertado da tirania dos papistas. Vós, ingratissimae bestiae,sois indignos do tesouro do Evangelho”.

Fonte: Weimar, XXVII, 408-411.

Com a veemência de semelhantes impropérios, os costumes não melhoravam.

“Vivemos ou melhor morremos nesta Sodoma, nesta Babilônia”.
Fonte: De Wette, V, 722.

Escrevia em 1545 ao Príncipe de Anhalt, Jorge; e poucos meses depois à sua Catarina: “Fora, fora desta Sodoma”.

Fonte: De Wette, V, 753.

Do estado moral de Wittemberga já em 1527 escrevia Melanchthon a Justo Jonas:

“Quando vieres a Wittemberga verás como tudo o que havia de bom ameaça ruína, que ódios dividem os homens, que desprezo de toda a honestidade, que ignorância nos que governam as igrejas, e quão [duas palavras gregas]”.

Corpus Reformatorum,I, 888.

Ickelsamer escrevia a Lutero: “Quanto mais se aproxima alguém de Wittemberga, tanto pior cristão se vai tornando”.

O incêndio, que assim crescia de dia para dia com imensa ruína das almas, não podia deixar, de quando em quando, de remorder-lhe a consciência atordoada pelo orgulho.

“Vejo esses males e os deploro. Muitas vezes pensei se não teria sido melhor conservar o Papado, do que ver tamanha perturbação. Melhor é, porém, arrancar alguns das fauces do demônio do que perecerem todos”.

Fonte
: Weimar, XX, 674.

Nestes momentos de angústia, para tranqüilizar os sobressaltos da consciência, acolhe-se à convicção fanática da sua missão divina.

A Nau dos Insensatos, detalhe, Hyeronimus Bosch (1450 — 1516)

“A idéia que é divina a minha missão é-me de grande conforto. Com ela muitas vezes me defendo do pensamento satânico de que o Evangelho é a causa dos grandes escândalos que presenciamos.

“Confesso, porém, que se Deus não me fechara os olhos, se houvera previsto todos esses males, nunca certamente teria começado a pregar o Evangelho”.

Fonte: Walch, VI, 920 (Doellinger, Die Reformation,2(2), 304).

“Quem de nós, dizia ele em 1538, se teria abalançado a pregar, se pudera prever que tanta desgraça, tanto escândalo, tanto crime, tanta ingratidão e malvadez seriam o resultado da nossa pregação?

“Agora, uma vez que chegamos a este estado, soframos-lhe as conseqüências”.

Fonte: Walch, VIII, 564, (Doellinger, Die Reformation,I(2), 305).
Último pensamento, enfim, que o consola em meio do dilúvio de males por ele desencadeado é a iminente destruição universal. A aniquilação do mundo,
ele a invoca com esperança como supremo remédio.

“Desejo sair, com todos os meus, deste mundo satânico; anelo pelo supremo dia que porá termo aos furores de Satã e dos seus”.

Fonte: De Wette, V, 703.

Ao mesmo amigo J. Probst escrevera dois anos antes, em 1542:

“O mundo ameaça ruína; disto tenha certeza: tal é o furor de Satanás, tal o embrutecimento geral.

“Só me resta como consolo a iminência do dia derradeiro... a Alemanha foi e nunca voltará a ser o que foi”.

Fonte: De Wette, V, 451.



Muskulus: “não é possível piorar”


A ideia do fim iminente do mundo tornou-se nos últimos anos uma verdadeira obsessão para o heresiarca, que ainda uma vez arriscou nela os seus créditos de profeta.

O mundo não duraria 100 anos, nem mesmo 50! A corrupção era tão geral e tão profunda que já não podia crescer e só o juízo final lhe poderia pôr termo. Sobre as idéias de Lutero acerca do fim próximo do mundo, cfr. Grisar, Luther, III, 202-211.

Já nos parece ouvir nestas expressões coloridas ainda de tintas cristãs, o grito pessimista de Hartmann apelando para “o suicídio cósmico” como único termo aos males irremediáveis da vida.

Em Melanchthon, discípulo predileto de Lutero, a mesma persuasão, sugerida pelos mesmos motivos.

“Cresce de dia para dia o desprezo da religião, não só entre o novo a quem se pode perdoar, mas entre os sábios que ou se fazem epicureus ou acadêmicos.

“A corrupção dos homens, a tristeza dos tempos e a insânia dos príncipes bem mostram [quatro palavras gregas] e que é iminente o advento de Cristo”.

Fonte: Corpus Reformatorum, III, 895.
Andreas Musculus 'não é possível piorar'.
O Triunfo da Morte, Pieter Brugel

Andreas Musculu: “se os nossos filhos,
já afogados na desordem e na dissolução,
tiverem descendentes será preciso
que se transformem em verdadeiros demônios,
porque não vejo como cheguem a ser piores que nós”.

Depois dos mestres os discípulos.

André Muskulus, um dos mais fogosos campeões do luteranismo, escrevia em 1561:

“Chegamos a tal extremo que já não há, entre nós, quem não confesse claramente que nunca, desde que o mundo é mundo, houve tanta corrupção na juventude.

“Não é possível piorar... Se o mundo durar ainda algum tempo e se os nossos filhos, já afogados na desordem e na dissolução, tiverem um dia descendentes que nos sobrelevem no vício e na malícia, será preciso que os homens se transformem em verdadeiros demônios, porque realmente não vejo como, conservando caráter humano, cheguem a ser piores que nós”.

Fonte: A. Muskulus, Von der Teufels Tyrannei, no Theatrum diabolorum f. 160. Cfr. etiam f. 128, 137 b.

Pouco mais tarde, Belzius que, com o seu divórcio beneficiara também da emancipação geral das consciências, assim pinta os costumes do tempo:

“Quereis ver reunida no mesmo lugar uma população inteira de selvagens e ímpios, entre os quais toda a espécie de iniquidade é de prática cotidiana e, por assim dizer, de moda?

“Ide às nossas cidades luteranas, onde se acham os pregadores mais estimados e onde o santo Evangelho é pregado com mais zelo: aí a encontrareis...

“Dos púlpitos já se brada que as boas obras são não só desnecessárias senão ainda nocivas à salvação das nossas almas”.

Fonte: Belzius, Von Jammer und Elenden menscht. Lebens, Kurzer Unterricht aus dem 90 Psalm, Lipsiae, 1575, C. 6, D. 6.
Belzius: “Ide às nossas cidades luteranas:
aí encontrareis.uma população inteira de selvagens e ímpios”

Comparando os novos costumes com os antigos, escreve Pirkheimer em 1527:

“Esperávamos que a malvadeza romana bem como os maus costumes dos monges e padres se devessem corrigir; mas, a quanto vemos; as coisas foram de tal jeito piorando, que em confronto dos velhacos evangélicos os antigos seriam santos”.

Fonte: Ap. Hermann, Documenta litteraria, Aldorfii, 1758, p. 59.

Um franciscano apóstata Eberlin de Günzburg, confessa igualmente:

“somos duas vezes piores que os papistas, antes piores que Tiro, Sidônia e Sodoma”
.
Fonte: B. Riggenbach, Jah, Eberlin von Günzuburg, 1856, p. 242.

Se assim é, por confissão dos próprios chefes da Reforma, quanto mais se esforçam os modernos protestantes por pintar com tintas carregadas a época anterior a Lutero, tanto mais negro deverá aparecer o luteranismo.




A obra-prima do fanatismo


O sono da razão produz monstros.
Francisco Goya (1746 - 1828), Museu do Prado.

A doutrina da inutilidade das boas obras era o grande agente corruptor. À sua sombra organizava-se a licença autorizada.

Afirma-o, entre muitos outros, Diogo André com a autoridade de quem, como inspetor, empreendeu inúmeras viagens e recolheu muitas observações, publicadas em 1568:

“A fim de que saiba o mundo inteiro que não são papistas e não põem a sua confiança nas boas obras, os nossos luteranos diligenciam por não praticar nenhuma.

“Em vez de jejuar, comem e bebem noite e dia; em vez de socorrer os pobres, acabam de esbulhá-los; em vez de orar, blasfemam e desonram a Jesus Cristo, por modos que excedem a ousadia dos próprios turcos.

“Finalmente, em vez da humildade cristã, aninham no coração o orgulho e o amor do erro. Tais são os costumes dos nossos evangélicos”.

Fonte: Jacob Andreas, Erinnerung nach dem Lauf der Planeten gestellt,Tübingen, 1508, pp. 140 ss.

Insistamos um pouco mais em mostrar como o desmando geral dos costumes se apresentava evidentemente como uma consequência das doutrinas e da pregação da Reforma.O reitor protestante I. Rivius escreve em 1547:

“Se és adúltero ou libertino, dizem os pregadores, crê simplesmente e serás santo.

Eis a obra-prima do fanatismo!

“Nem temas a lei, porquanto Cristo a cumpriu e satisfez pelos homens... Semelhantes discursos levam à vida ímpia”.

Fonte: I. Rivius, De Stultitia mortalium, Basilae, 1557, I. 1, p. 50 s.

Em 1525, Jorge, duque de Saxônia, escrevia ao corifeu reformador:

“Quando se viu maior número de adultérios como depois que escreveste: se uma mulher é estéril, una-se a outro e os filhos sejam alimentados pelo primeiro marido. E outro tanto façam os homens?”.

Fonte: Enders, V, 289; ed Jena, 1556, III, 211.

E como não haveria de ser assim quando se ouvia Lutero ensinando desde 1523:

“Deus só te obriga a crer e a confessar.

“Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazer o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum.

“E que se lhe dá, se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?”.

Fonte: Weimar, XII, 131 ss
A tentação de Santo Antônio, detalhe.
Hieronymus Bosch (1450 — 1516)

Cabe aqui a observação que em 1565 fazia Joannes Jacobus na obra sobre a sua conversão:

“entre os católicos os pecados atribuem-se às pessoas, entre os luteranos às doutrinas e às pessoas”.

Räss, Die Convertiten seit der Reformation,Freiburg i. B., 1866, I, 522.

Fechemos esta primeira série de testemunhas acerca da corrupção geral desencadeada pelo protestantismo com o depoimento de Pedro Arbiter, interessante sobretudo no ponto de vista da psicologia dos primeiros reformadores:

“Porque permanecem alguns fiéis ao papismo e outros a ele voltam depois de o haver renunciado, senão porque de tal modo os cega o espírito das trevas, que, quer entre nós, quer entre eles, consideram como nonada o que deveriam estimar como coisa principal e atribuem, pelo contrário, gran-díssima importância ao que não na tem nenhuma?

“Porquanto, que vale todo o bem do mundo, que é a perfeição, a sabedoria, a autoridade, a ordem, a concórdia e as outras virtudes que admiramos entre os papistas, se a doutrina é má e para a salvação só a doutrina é indispensável?...

“Permiti que vos dê um conselho? Para julgar entre a Igreja papista e a nossa, atendei à doutrina e não às aparências”.

Fonte: P. Arbiter, Die christl. Busselehre mit der papitschen verglichen, Magdeburg, F. 2, 3.

Ironia das coisas! A depravação dos costumes da Igreja Romana fora o pretexto da revolta religiosa que se apresentou ao povo sob o especioso nome de Reforma.

Ora, diante da corrupção avassaladora que babilonizava os povos, diante dos desmandos protestantes, a cuja comparação os costumes católicos eram confessadamente a perfeição, a ordem, a sabedoria, e outras virtudes admiráveis, que fazem os paladinos da regeneração do cristianismo?

Em lugar de arrepiarem carreira, proclamam a dissolução moral uma bagatela para desprezar-se e apelam cinicamente para a doutrina, – para esta doutrina, que abalando os princípios, negando a liberdade, inculcando o pecca fortiter, assegurando a certeza da salvação sem virtudes, a inadmissibilidade da graça, emancipara as consciências da lei e da responsabilidade, abrira a porta a todos os desmandos, soltara o freio a todos os apetites brutais, estimulara todas as paixões, divinizara o pecado!

Eis a obra-prima do fanatismo!








Luz de Cristo x trevas da irracionalidade: Pe. Leonel Franca S.J.