Caro Irmão de Cá,
Vou continuar a debater este assunto, querendo vincar que como já certamente foi visível para todos dados os meus comentários noutros tópicos que a minha discordância neste ponto de Olivença não tem como origem nenhum sentimento de "perigo Espanhol". Muito pelo contrário: para mim esta é uma espécie de "ferida aberta" porque me lembra do pior que pode existir entre irmãos. Como tal peço que os leitores não extrapolem do que vou escrever qualquer tipo de "primarismo" irredentista baseados na demonização de Espanha.
Eu também creio que não são completamente comparáveis, por várias razões. O caso de Gibraltar porque involve nações bastante díspares entre si, mas noto também uma outra diferença: é que em relação a Gibraltar a situação favore de jure o Reino Unido, enquanto em Olivença a situação favorece de jure Portugal (na minha opinião, sei que existem interpretações diferentes das disposições do Tratado de Viena).
Como não sou "legalista" não é isto que me faz concordar com que Gibraltar seja do Reino Unido. Os tratados reflectem o status quo de determinada época, normalmente seguidos a conflitos.
Tal como um largo número de vilas e cidades fronteiriças. Portugal é uma larga "raia" em certo sentido, sendo que de norte a sul sempre existiu essa questão... no entanto o Tratado de Alcanizes não é algo que na minha opinião deva ser subvalorizado: foi feito no século XIII, apenas um século após a própria fundação de Portugal, não é algo que reflicta uma situação de conflito recente. É a base da estabilidade das fronteiras entre Portugal e Espanha, algo de matricial e não casual. Da mesma forma não creio que Portugal possa querer Ayamonte porque "apenas" ficou decidido em 1297.Olivença, antes de ter sido portuguesa já tinha sido castelhana: foi entregue a Portugal pelo tratado de Alcanizes assinado pelos reis Fernando III de Leão e Castela e D. Diniz de Portugal.
Isto é, o Tratado de Alcanizes é essencial para a definição do que é Portugal.
Depende do conceito de estabilidade, como disse acima. Em termos históricos foi bastante estável, dado que o Tratado de Alcanizes é do śeculo XIII. A vontade da população da altura de facto pouco importava, mas o mesmo pode ser dito para qualquer vila, cidade e até país!Trata-se portanto de uma povoação da raia (mista) cuja soberania não foi totalmente estável, provavelmente à revelia da vontade da própria população - o que não surpreenderia, não era uso ratificar tratados por referendos nessa altura.
Eu compreendo este ponto... mas para mim não é do ponto de vista legal algo de essencial. Dada a política que se seguiu á ocupação é mais que óbvio que os oliventinos são hoje na sua esmagadora maioria Espanhóis. Mas isto pouco altera a questão, dado que o mesmo pode ser dito de todas as áreas que foram ocupadas e a que se seguiram políticas de estrangulamento cultural e até populacional. A maior parte do Tibet vai ser Chinês daqui a uma década, Gibraltar tem situação idêntica e como disse este argumento é utilizado pelos que não sentem qualquer problema em reconhecer que "minorias" que passem " maiorias" em determinadas zonas possam reclamar a sua autonomia.Seria bom começar-se a dar atenção à opinião dos oliventinos para variar...
A situação de Olivença não foi tão pacífica como deixa transparecer. Desconheço os detalhes da situação de Gibraltar, mas em Olivença houve de facto uma política concreta e documentade de "espanholização", utilizando não só legislação para o efeito como tendo inclusivé envolvido desolocamentos populacionais. Se foi em menor quantidade que Gibralrar não dúvido, afinal de contas as diferenças entre Portugueses e Espanhóis são incompravelmente menores.Outro ponto em que não é comparável com Gibraltar a situação de Olivença, é que após a ocupação de Gibraltar pelos ingleses foi feita uma completa "limpeza" da população do "rochedo", isto é: os espanhóis foram praticamente todos expulsos ou levados a fugir para as povoações espanholas vizinhas e em sua substituição foi "importada" uma população misturada de origem maltesa, inglesa, hebraica, enfim gente desenraizada e fácil acato da autoridade britânica. Isso não sucedeu em Olivença: a população actual conserva nomes e vestígios da sua origem portuguesa ou mista, o que denota que não houve essa "limpeza"; tem por isso ampla e reconhecida capacidade de, com conhecimento de causa, saber o que é ou não é, qual a sua identidade e nacionalidade em relação à terra onde vive. Quanto a se têm representação nas instâncias próprias, acredito que não tenha muita - mas isso estende-se a todos os extremenhos, como já vimos![]()
Correcção: nunca tinha sido "espanhola", o Tratado de Alcanizes é feito séculos antes do estado unificado espanhol. Quanto a Godoy, é precisamente a razão pela qual considero Olivença um caso paradigmático do que pior pode haver entre Portugal e Espanha: após a divisão de Portugal com os aliados Franceses ficam om Olivença "a título de conquista", isto no século XIX.Eu acho que foi portuguesa. Mas antes já tinha sido espanhola e voltou a sê-lo, em 1800, graças à ignomínia de Godoy, não o nego.
Sim, nao discordo. O meu discurso não deve ser interpretado como um apelo á tomada militar de Olivença. Existem várias possibilidades em aberto. A questão é que qualquer uma delas passa pelo não reconhecimento inicial da possa Espanhola de Olivença. Caso esta aconteça não há qualquer solução, nem sequer teórica.O que digo é que Olivença não é uma questão de preto ou branco, é mais de cinzento: o tom certo só se pode ver de perto. De lá, Olivença.
Bem, muitos pensam - mal - que sim.A diferença está, como referi, na endogenia da população, na sua estabilidade de origem desde há muitos séculos. Não é por há 2 dias chegarem carregos de mouros a Barcelona, como emigrantes, que se podem arrogar decidir sobre os destinos de terra estrangeira.
A muitos ocorre que é Marroquina. Mas Ceuta é um caso diferente, até porque não se podem comparar praças Norte-Africanas ou ultramarinas em geral com Portugal. Este é um discurso tipo Estado Novo - Portugal pluricontinental - que não partilho.Aqui não se trataria de um "caso cinzento". Mais comparável com o caso de Olivença seria o de Ceuta e ninguém lhe ocorre pensar que Ceuta ainda é portuguesa.
Ver acima... é muito diferente falar de uma praça Norte-Africana do que falar de vilas e cidades que fazem parte de Portugal no seu sentido de nação. Olivença não é diferente Arouche, Almeida, Aracena ou Campo Maior. Estamos a falar de um local que desde o Tratado de Alcanizes - volto a referir, século XIII... muitas localidades de Espanha são-no há menos tempo - que é Portugal, deixando-o do ser no século XIX mercê a aliança Franco-espanhola. De resto é paradigmático que o tratado pela qual Espanha reclama o "direito de conquista" de Olivença valha pouco ou nada dado o que se sucedeu a seguir.Não esqueçamos que Ceuta não escolheu ser fiel ao rei de Espanha na Restauração: não tinha outra escolha, por que toda a água potável lhe chegava de barricas de Algeciras, ou ficava espanhola, ou morria de sede ou se entregava aos mouros para não morrer de sede. E Ceuta, embora seja historicamente hispana (desde a Septa romana), nunca foi castelhana até 1640. Mas por alguma razão (que desconheço) este é um caso pacífico para os portugueses, ao contrário de Olivença...
É sem dúvida uma questão complexa. Mas pessoalmente não é uma questão que esteja disposto a "deixar cair" a bem da (real e verdadeira) necessidade de uma geo-estratégica comum ibérica.
Marcadores